“Walt Disney – O Triunfo da Imaginação Americana” – Neal Gabler. Trad. de Ana Maria Mandim.

John Loengard / Time Life Pictures/Getty Images
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Walt Disney, um desejo: “De todas as coisas que fiz, gostaria de ser lembrado como um contador de histórias”

Novo Século, 944 págs.

Honra ao mérito: a trajetória de Walt Disney (1901-1966), nascido de pobre família americana e alçado à condição de um dos ícones mais marcantes da cultura contemporânea, é exemplo esplendoroso de como o ser humano pode (e deve) lutar contra as vicissitudes, vencê-las, e deixar marcas indeléveis em contemporâneos e pósteros.

Na gênese criativa do genial (contraditório, inquieto, perfeccionista e obcecado) Walt Disney houve duas peças essenciais: um homem (o tio Edmond) e uma cidade (Marceline, Kansas, onde passou a infância). O irmão mais novo do pai Elias era deficiente mental e com ele o garoto deu os primeiros passos no sentido de transformar a imaginação e a fantasia (dele e do público) na base de toda a arte que criaria. Peter Pan materializado, ‘tio Ed’ se recusava a mergulhar na vida adulta e era capaz de memorizar os nomes de todas as plantas que conhecia e de nominar os pássaros pelos gorjeios que emitiam: “Para mim ele representava a brincadeira em sua forma mais simples e pura”, diria Disney mais tarde.

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Sobre Marceline, Disney foi efusivo: “Mais coisas importantes me aconteceram nessa cidade do que em qualquer outro lugar”. Por exemplo: a) foi pela primeira vez ao circo; b) quebrou cofrinho em forma de porco para ver representação teatral de Peter Pan; c) assistiu à primeira sessão de cinema: filme histórico vagabundo sobre a vida de Cristo.

O menino cresceu, vagou por outras regiões dos Estados Unidos, deslumbrou-se com o cinema de Charles Chaplin, entrou para a marinha, foi para o front americano na Europa na Primeira Guerra Mundial, rabiscou e criou os primeiros desenhos animados em Kansas City antes dos 20 anos e, passo fundamental na explosão do gênio, se mudou para Los Angeles em 1924, onde tudo, para o bem e para o mal, começou.

Em 40 anos, Disney se tornaria tão poderoso e tão ciente da genialidade que o arrebatava que chegou a ser comparado a Deus. Verdade seja dita, essa comparação não o desagradava. E não se podia culpá-lo por isso (afinal, mudara radicalmente a história do cinema). No início dos anos 1960, quando criou boneco à imagem e semelhança do presidente Abraham Lincoln, conseguiu perfeição tal que um pastor evangélico o repreendeu: “Isso é usurpar os poderes de uma autoridade maior”.

O cada vez mais poderoso Disney não pareceu dar bola à advertência e, nunca escondeu de ninguém, buscou, intencionalmente, uma espécie de perfeição ‘divina’ em cada filme que criou. Para corroborar esse mimetismo entre o homem e Deus, o senhor Disney era chegado a: 1) explosões de ira; 2) arroubos de despotismo; 3) sentimentos anticomunistas (como sabemos, Deus e comunismo nunca rimaram); 4) julgava-se gênio (e, de fato, o era) e imortal (e, de fato, não o era; morreu aos 65 anos consumido por voraz câncer de pulmão). O crítico Richard Schikel costumava afirmar: “A maior criação de Walt Disney foi o próprio Walt Disney”.

Essa trajetória de cores nitidamente shakespearianas, com riqueza de detalhes justificada por sete anos de pesquisa e acesso inédito aos arquivos da família do biografado, é o tema de “Walt Disney – O Triunfo da Imaginação Americana”, escrito por Neal Gabler. Em quase mil páginas, das quais trezentas são notas complementares, o autor mergulha com profundidade algo asséptica na saga existencial e criativa de um dos homens mais notáveis que o século XX produziu.

Explique-se o algo asséptica: falta nessa caudalosa biografia certa, digamos, fusão entre o espírito-de-corpo do artista biografado e o formato e o conteúdo desse “tour de force” biográfico que o autor erigiu. O próprio Gabler conta da obsessão de Disney na busca da piada perfeita para a cena perfeita. Perseguia incansavelmente a perfeição, mas perseguia ainda mais incansavelmente o bom-humor, o riso e a alegria estampados nos rostos das pessoas que devoravam os filmes que criava.

Gabler prefere ignorar esse apelo desabrido do biografado e escreve livro correto, mas árido, eventualmente insípido, sem atrativo maior que não seja a enorme quantidade de informações coletadas. Além do mais, pecado (sem trocadilhos) capital, afoga-se em números e mais números. Todas as cifras (salários, lucros, dívidas, perdas etc.) são listadas avidamente, o que poderá levar o leitor a crer, erradamente, que Disney foi mais um homem de negócios do que um homem das artes.

Na verdade, essa (a briga entre o capital e a imaginação) foi a grande fissura existencial e criativa de Disney. Quis sempre criar, criar, criar. Mas sempre tinha que pagar contas, pagar contas, pagar contas. Não à toa, delegou ao irmão Roy toda a parte operacional do império que construiu (foi ele quem, incansavelmente, lhe viabilizou os delírios criativos).

É provável que o rigoroso Disney (cujo rigor criativo com os desenhistas com que trabalhava se tornou lendário) pedisse a esse biógrafo póstumo que fosse menos Neal Gabler e mais Walt Disney na biografia que escreveu. E talvez lhe repetisse o que dissera a um jornalista nos anos 1940: “De todas as coisas que fiz, gostaria de ser lembrado como um contador de histórias”.

“Walt Disney – O Triunfo da Imaginação Americana” soa, assim, meio anacrônico. Meio assim uma peça de conotações shakespearianas (ascensão, queda, paixões, obsessões, agonias, êxtases; a condição humana enfim, nas mais abissais vertentes) escrita nos moldes de caudaloso “case apresentado em congresso banal sobre os descaminhos do capitalismo.