Divergências atrasam Parque Tecnológico de BH

Marcelo Sant’Anna/EM/D.A Press
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ico_foto.gif Governo do estado cumpre sua parte e promete entregar em março a primeira edificação do BH-Tec, com 8,5 mil metros quadrados

As duas âncoras do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec) correm o risco de serem lançadas em outros mares. As negociações com a Google e o Centro de Pesquisas René Rachou, braço mineiro da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), esbarram em entraves, como divergências com o projeto original, que podem atrasar o avanço do parque, previsto há mais 15 anos para a capital. A Google Inc., maior empresa de internet do mundo, abriu mão do papel de pioneira entre as empresas que se instalariam no centro de tecnologia e já ocupa outro espaço na capital. O centro de desenvolvimento de softwares da companhia na América Latina está instalado em alguns andares de um prédio na Avenida Bias Fortes, perto da Praça da Liberdade e, segundo a empresa, não há planos de mudança.

As negociações com o Centro de Pesquisas René Rachou também atrasaram por causa de uma divergência: a administração do parque queria que o centro doasse as construções de infraestrutura destinadas ao desenvolvimento de tecnologia comum às empresas e instituições. O entrave levou o braço da Fiocruz a alimentar a hipótese de instalar sua sede em outro lugar, que seria cedido pela Fundação Carlos Chagas, no Bairro do Horto, na Região Leste de BH. O crescimento das atividades de pesquisa em Minas nos últimos anos tornou inviável o prosseguimento das ações na sede atual, na Avenida Augusto de Lima, no Barro Preto, na Região Centro-Sul da capital.

“A exigência da Fiocruz de construir e entregar ao parque uma estrutura para uso comum torna a hipótese de instalação em outro lugar mais interessante”, afirma um dos pesquisadores do René Rachou, que acompanha as negociações de perto. Segundo ele, na última semana a administração do BH-Tec sinalizou uma reavaliação de sua posição. A nova proposta atenderia tanto o René Rachou quanto o parque: as plataformas tecnológicas e o laboratório seriam oficialmente da Fiocruz, mas compartilhados pelas empresas instaladas ali. “O martelo não foi batido, mas a negociação evolui para um acerto”, disse, na terça-feira, o pesquisador.

“Parques tecnológicos são empreendimentos de implantação lenta. Transformar pesquisa em conhecimento tecnológico não ocorre da noite para o dia”, admite o diretor-presidente do BH-Tec, Clélio Campolina Diniz, que deixa o posto em 1º julho para se candidatar ao cargo de reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na discussão com o René Rachou, ele afirma que esteve em jogo a necessidade de garantir a ponte entre a pesquisa e o setor produtivo. “Não faz sentido construir apenas um centro de pesquisa”, afirmou. Ainda assim, ele está certo de que a presença do braço da Fiocruz no parque estará garantida nas próximas semanas, com a assinatura de contrato.

Mas, em relação ao Google, Campolina não nutre esperança de instalação imediata. “A crise internacional reduziu a possibilidade de expansão da empresa, que postergou a decisão de ocupar um espaço no BH-Tec”, diz o diretor-presidente. Outra razão seria o fato de a empresa ainda ter um bom espaço para expansão no prédio onde mantém suas atividades, na Avenida Bias Fortes. “Eles querem esperar o parque começar a funcionar, não querem ser os primeiros”, conta Campolina. O diretor de comunicação da Google no Brasil, Felix Ximenes, negou que a crise vá reduzir a capacidade de expansão da empresa, porque os resultados no país não teriam sido afetados. Mas confirmou que estão satisfeitos com o espaço ocupado atualmente na capital mineira e, por isso, não há previsão de mudança.

Construção

Enquanto isso, o governo do estado promete entregar em março de 2010 a primeira edificação do BH-Tec, considerado como prédio institucional, que ocupará 8,5 mil metros quadrados. Pelo menos 3,5 mil metros quadrados serão destinados a empresas que se mostrem dispostas a se instalar na área. O antigo prédio da cavalaria da polícia foi reformado para funcionar como escritório do parque, cuja mudança depende do cercamento da área, etapa em fase de licitação. O secretário municipal de Planejamento, Helvécio Magalhães, informou que as ruas do BH-Tec estão prontas e há ordens de serviço para a instalação dos sistemas de energia elétrica e de abastecimento de água.

O processo de instalação do parque na capital mineira foi marcado por diversos percalços. A UFMG doou o terreno, na região da Pampulha, mas ele não estava regularizado. Foi preciso aprovar uma lei municipal específica para ocupação e atender condicionantes ambientais necessários à concessão de licença para construção. Tudo isso atrasou muito o processo. “Fico imaginando a angústia do presidente da República com as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Você tem disposição, recursos, mas também uma burocracia enorme, que trava tudo”, comparou Magalhães. “Brigamos muito dentro do governo para conseguir fazer as coisas avançarem. Mas precisamos ter paciência”, disse.