Equipamentos: Companhia americana projeta investimentos de aproximadamente R$ 70 milhões em três anos
NCR monta fábrica de ATM em Manaus

André Borges, de São Paulo
15/06/2009
A americana NCR, fabricante de terminais de autoatendimento bancário (ATM), vai montar uma estrutura própria para produzir seus equipamentos no Brasil. A companhia, conforme documentos obtidos pelo Valor, montará uma fábrica em Manaus, projeto que deverá receber investimentos totais de aproximadamente R$ 70 milhões nos próximos três anos. Deste total, cerca de R$ 30 milhões deverão ser aplicados no primeiro ano de atividade. Procurada pela reportagem, a NCR Brasil informou que não iria comentar o assunto.

Nos primeiros 12 meses de operação, a fábrica da companhia deverá produzir 9 mil caixas de autoatendimento, volume que subirá para 16 mil unidades no ano seguinte e para 20 mil máquinas em 2012. Os planos da companhia incluem a contratação de 90 funcionários diretos e 40 terceirizados para tocar a fábrica no primeiro ano de atividade, com a perspectiva de chegar a um total de 250 pessoas nos próximos três anos.

Com a fábrica, a NCR pretende transformar o Brasil em base de exportação de seus equipamentos. A estimativa é de que metade do faturamento da produção local venha da venda de ATMs para outros países. No primeiro ano de operação, a companhia projeta uma receita total de R$ 237 milhões, com lucro de R$ 47 milhões. Em três anos, a NCR Brasil espera chegar ao faturamento de R$ 528 milhões e resultado líquido de R$ 109 milhões.

O anúncio oficial da fábrica deverá ser feito amanhã, em São Paulo, pelo executivo-chefe da companhia americana, Bill Nuti.

A NCR é uma das companhias de tecnologia mais antigas do mundo que ainda permanecem na ativa. A empresa foi fundada em 1884, por John H. Patterson, o criador da caixa registradora. A ligação da empresa com o mercado brasileiro também não é recente. Neste ano, a companhia completa 72 anos de presença no país.

Com a abertura da base fabril em Manaus, a NCR repete uma estratégia que já fez parte de sua trajetória no país. Até março de 2007, a companhia mantinha uma unidade de produção em São Paulo. A busca por redução de custos globais, no entanto, fez com que a companhia decidisse terceirizar a fabricação de ATMs com a Solectron, comprada em 2007 pela Flextronics. Com isso, a antiga fábrica da empresa, instalada no bairro do Brás, foi fechada. A decisão acompanha a movimentação feita em outras duas fábricas da empresa nos Estados Unidos, que também foram desativadas após o acordo fechado com a Solectron. Desde então, as únicas bases próprias de produção que a companhia manteria ficavam na China, Hungria e Índia.

O Brasil é peça-chave na estratégia de crescimento da NCR, dado seu porte no mercado de ATM. Hoje, se considerada apenas as máquinas de autoatendimento usadas por bancos, o parque total chega a 170,2 mil equipamentos instalados. É o terceiro maior mercado do mundo, só perdendo para os Estados Unidos e o Japão. O fluxo de atualização dessa base também é forte. Por ano, algo entre 25 mil e 30 mil equipamentos são substituídos.

Em junho de 2008, em entrevista ao Valor, Bill Nuti chegou a afirmar que a NCR vinha realizando uma série de processos de “due diligence” (consultorias prévias para apurar informações de empresas) com o propósito de adquirir operações locais. A reabertura de uma fábrica no país também era uma possibilidade, disse ele.

Há um ano, a NCR detinha uma participação de apenas 6% no mercado nacional de ATMs, somando pouco mais de 10 mil máquinas instaladas. Atualmente, segundo dados da própria companhia, o volume saltou para 25 mil equipamentos em uso.

O reforço das operações no Brasil soa como uma resposta da companhia para enfrentar a queda de desempenho registrada nos trimestres mais recentes. No período encerrado em 31 de março, a empresa registrou faturamento de US$ 1 bilhão, abaixo do US$ 1,1 bilhão contabilizado no mesmo trimestre de 2008. A queda mais forte, porém, foi sentida nos lucros. Entre janeiro e março, a NCR teve um prejuízo de US$ 15 milhões (ver quadro). Foi o pior trimestre desde o início de 2004, quando a companhia registrou um saldo negativo de US$ 5 milhões. Em seu relatório de demonstração de resultados, a companhia atribuiu a queda na receita ao impacto da crise econômica e revisou suas expectativas para o ano. A projeção atual é de que o faturamento em 2009 seja de 5% a 10% inferior ao do ano passado.

Ampliar a participação no mercado brasileiro de ATMs não é tarefa fácil. Há quase uma década o setor é liderado pela Diebold, companhia americana que há dez anos comprou a brasileira Procomp e que hoje detém cerca de 60% do mercado de ATMs no país, com mais de 100 mil máquinas instaladas. Com três fábricas locais (duas em Manaus e uma em São Paulo) a Diebold ultrapassou o faturamento de R$ 1 bilhão no ano passado. A lista de concorrentes inclui ainda empresas voltadas para oferta de serviços, sistemas e equipamentos de ATMs, como a Itautec, do Itaú; a Scopus, do Bradesco; a Cobra Tecnologia, do Banco do Brasil; e a Perto, do grupo Digicon.

Para além do setor financeiro, a NCR também tem se aproximado de redes de varejo, que tendem a adotar máquinas de autoatendimento para prestar serviços. Em abril, a companhia adquiriu a totalidade de ações da TNR Holdings, segunda maior companhia da América do Norte especializada em quiosques de locação de DVDs e principal fornecedora desses equipamentos para a Blockbuster.