Cúpula: Brasil, Rússia, Índia e China realizam primeira cúpula do grupo e analisaram mecanismos de financiamento
Bric deverão estudar swap de moedas

Assis Moreira, de Genebra
15/06/2009
Os países do Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – poderão examinar “troca (swap) de moedas” entre eles e outros mecanismos inovadores de financiamento, em sua primeira cúpula, amanhã, em Ecaterimburgo (Rússia), disse o chanceler Celso Amorim.

Na crise global atual, os acordos de “swap cambiais”, como o Federal Reserve fez com o Brasil, a China e com países do Sudeste Asiático foram para dar liquidez e preservar as reservas internacionais. Outros acham que isso estimulará o comércio em moeda nacional.

Com a confiança no dólar abalada, aumenta o interesse dos países em salvaguardar suas reservas e relações comerciais da volatilidade da moeda dos EUA. Os emergentes têm 60% de suas reservas em dólar e devem acumular mais US$ 156 bilhões em 2009 e US$ 500 bilhões em 2010, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF).

Mas Amorim é cauteloso sobre o que pode sair já amanhã de concreto na reunião entre os presidentes brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, o russo, Dmitri Medvedev, o chinês, Hu Jintao, e o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh. “Reduzir a dependência do dólar é positivo, mas há diferentes formas de avançar nesse tema”, afirmou ele, em entrevista ao Valor.

O encontro de Ecaterimburgo marca “uma mudança evidente no cenário internacional”, na visão brasileira. “Seguramente vai coordenar posições para responder à crise global e para o além da crise também”. A agenda inclui discussão sobre a nova arquitetura financeira global, segurança energética e alimentar, mudança climática, comércio e mecanismos para cooperação entre os quatro países.

A expectativa maior é em torno da estabilidade do sistema monetário global e como reduzir a dependência em relação ao dólar americano. Realisticamente, as alternativas ao dólar são limitadas e o IFF, representando os grandes bancos, insiste que diversificação em outras moedas “não é prático”.

Medvedev, que organiza o encontro, contesta a existência de um “grande centro de consumo financiado por gigantescos déficit e dívida” que agravam as turbulências do dólar. O dirigente russo defende a criação de uma “cesta de novas moedas de reserva”. Argumenta que a existência de um euro forte como moeda de reserva atenuou o impacto da crise global sobre a economia da Europa.

Certos assessores russos falam em criação de um banco dos Bric, mas o assessor internacional do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, disse que não sabia disso. Para o especialista russo Serguei Kurginnian, “um resultado substancial de Ecaterimburgo já pode ser qualquer avanço na direção de amplos acordos de troca de moedas entre os Bric e isso abre o caminho de utilização das moedas nacionais no comércio”.

O Brasil cita como exemplo de desdolarização o começo da experiência no comércio entre Brasil e Argentina. Na prática, em seis meses de existência, a utilização do real e do peso só envolve 0,12% das trocas bilaterais.

Amorim advertiu que o que sair dos Bric “será sem prejudicar a indústria brasileira”, procurando atenuar receio de setores industriais de que a proposta do presidente Lula para Brasil e China financiarem o comércio bilateral em real e yuan signifique um estímulo a mais de compra de produtos baratos chineses.

O rumo a ser tomado nos Bric sobre desdolarização dependerá da China, o novo peso pesado financeiro global, com mais de US$ 2 trilhões de reservas. O presidente do Banco Central chinês, Zhou Xianchuan, causou tremores em março quando propôs a moeda do FMI, os Direitos Especiais de Saque, para substituir o dólar. Na semana passada, ao apresentar a agenda para os Bric, o vice-chanceler chinês, He Yafei, disse que “ninguém quer abandonar o dólar”.

“A cooperação nos Bric é importante, mas complicada para a China”, diz o professor Ho-fung Hung, da Universidade de Indiana (EUA).

De um lado, Pequim quer reduzir a excessiva dependência em relação ao dólar americano, temendo persistente desvalorização da moeda no longo prazo. De outro, quer salvaguardar o valor de suas gigantescas reservas denominadas principalmente em dólar. Enquanto o primeiro ponto é um incentivo para Pequim participar ativamente de uma iniciativa coletiva dos Bric para depender menos do dólar, o segundo leva a China a acelerar o diálogo e a cooperação com os EUA para estabilizar o valor da moeda americana e, assim, perpetuar sua dominação na economia global.

A China não tem, desse modo, como apoiar proposta mais radical e os quatro países evitarão sugestões dramáticas que ameacem a era do dólar, diz Ho-fung.

Em contrapartida, o encontro de Ecaterimburgo fará mais pressão pela democratização das organizações financeiras internacionais como FMI, com data precisa para obter mais direito de voto proporcional ao peso dos quatro na produção mundial. Com isso, podem obter maior influência nas questões financeiras globais, mesmo com a dominação do dólar. “Os EUA também podem se beneficiar dessa forma, e os únicos perdedores serão alguns países europeus que têm poder de voto maior que sua fatia na produção global”, diz o professor chinês.