Google esconde um ‘segredo’ na Dinamarca

Rob Minto, Financial Times
13/04/2009
 

 

A cerca de 8 quilômetros de Aarhus, na Dinamarca – a segunda maior cidade do país e a capital não oficial da península da Jutlândia – existe uma fazenda que foi adaptada. Dentro dela, em um grande espaço com piso de madeira e teto abobadado, que já foi o estábulo, um grande sofá de couro está posicionado perto de um tocador de DVD. Do lado de fora, com seus pavimentos de pedra e pequenas janelas embutidas, a fazenda ainda parece mergulhada no passado, mas este é um lugar onde uma parte importante do futuro da internet tomou forma.

O percurso de carro de Copenhague leva mais tempo que o esperado e é difícil achar a sede da fazenda. Lars Bak – proprietário do local e um gênio da programação, segundo seus colegas, fez sua casa ali por um motivo: ele não gosta de ser encontrado. Seu pastor-alemão Mickey também não fica feliz em nos ver: o cachorro precisa ser preso antes de eu pensar em sair do carro.

É um dia frio de dezembro na Dinamarca. Bak parece pouco confortável quando nos cumprimentamos e tenho a sensação de que ele não me quer perto da casa. Em vez disso, vamos para o salão abobadado com o sofá marrom. Hoje em dia ele é um cinema em casa, mas antes disso era o escritório de Bak.

A temperatura está apenas um pouco mais quente que do lado de fora. Tremo enquanto abro meu bloco de notas. “Então, o que você quer saber?”, pergunta Bak. Temos quatro horas pela frente.

Lars Bak não é um nome conhecido – pelo menos este. Há um Lars Bak mais conhecido na Dinamarca que é um ciclista profissional. Mas este Bak terá um impacto bem mais profundo na sua vida do que qualquer esportista. Seu mais recente programa de computador, chamado V8, é parte do navegador da internet Chrome, uma peça-chave no plano de negócios do Google.

As empresas não ganham dinheiro com navegadores da internet – os Explorers, Safaris e Firefoxes da rede mundial de computadores. Então, por que um novo browser é tão importante para o Google?

A resposta não está no browser em si, mas nas coisas que ele pode acessar, especialmente programas baseados na internet. Estes, sim, são uma fonte de receita para o Google. A companhia tem grandes esperanças no Google Docs, por exemplo, um conjunto on-line de software que replica muitos programas do pacote Microsoft Office – Word, Excel e PowerPoint -, que são instalados no computador e constituem as ferramentas das empresas modernas.

Mas para criar versões melhores desses e outros programas na internet, você precisa de navegadores melhores, que possam identificar os códigos que serão inseridos neles. Muitos de nós já usam programas baseados na internet, que não requerem um software instalado no computador: contas de e-mail como o Hotmail, Yahoo mail ou Googlemail, por exemplo. Mas eles são relativamente simples: sua complexidade fica muito aquém da dos programas armazenados no PC.

A sofisticação dos aplicativos da internet está aumentando muito mais rapidamente que o poder correspondente dos browsers. É como ter muitos automóveis esportivos potentes em estradas esburacadas. E mesmo assim, nenhuma montadora até hoje investiu na construção de rodovias. Afinal de contas, esse tipo de iniciativa beneficiaria igualmente os concorrentes, sem mencionar o fato de ser muito caro. O desenvolvimento de software não custa tanto, embora o problema da concorrência permaneça. Mas o Google diz que não liga: sem a melhoria no desempenho dos navegadores, afirma a companhia, todos nós vamos sofrer.

A capacidade de acessar programas complexos por meio da internet é conhecida como “cloud computing”, ou computação em nuvem, e o Google não é a única empresa que afirma estar adiantada nisso. Até a Microsoft, considerada um sinônimo de aplicativos e sistemas localizados no micro dos usuários, vem falando em mudar para “a nuvem”. Steve Ballmer, executivo-chefe da Microsoft, já prometeu um “sistema operacional que vai rodar na internet”, que ele chamou de “Windows Cloud”. Mas para a computação em nuvem realmente decolar, os browsers terão de melhorar.

E é aí que Bak entra. O dinamarquês apareceu pela primeira vez nos radares do Vale do Silício, na Califórnia, em 1991, quando entrou para a Sun Microsystems e começou a construir a reputação de ser um dos melhores programadores do setor. Ele saiu para ajudar a começar a Animorphic Systems, em 1994, que acabou sendo adquirida pela Sun. De volta à companhia, Bak desenvolveu o que se tornaria o Java HotSpot, um sistema de computação que se tornou um padrão do setor.

No início de 2000, porém, ele deixou o centro mundial da computação e foi para a Dinamarca, em busca de qualidade de vida para ele e suas filhas. A comunidade dos programadores nos Estados Unidos pode ser intensa e o estilo de vida, pouco saudável. Quando Bak voltou para a Dinamarca, perdeu 20 kg em dois meses (graças a um fenômeno bem americano, a dieta de Atkins), e assim se mantem até hoje.

Em 2002, Bak fundou uma companhia, a OOVM, com sede em Aarhus. Em 2004, ele a vendeu para a companhia suíça Esmertec, onde permaneceu por dois anos, ajudando a integrar os dois grupos. Quando saiu da Esmertec, ele não estava particularmente em busca de um novo projeto: tinha dinheiro para sustentar a família e maneiras de continuar ocupado, que incluíam um plano de pintar a fazenda. Ele acreditava que isso levaria um ano.

Então veio o chamado do Google. Para a empresa, Bak era a escolha óbvia – ele tinha a experiência e o talento para criar um componente vital do Chrome, seu mecanismo JavaScript. Para Bak, trabalhar para o Google seria “moleza”. “Não me interessa ser um executivo de alto escalão. O que gosto é de ampliar as fronteiras tecnológicas.”

Bak estava pronto para trabalhar, mas não para retornar à Califórnia. Na verdade, isso nem era uma opção – apesar dos escritórios do Google serem notoriamente amigáveis aos trabalhadores, com comida de primeira na cantina e cortes de cabelo gratuitos no local. Em vez disso, Bak iria trabalhar em casa, a mais de 8 mil km de distância e nove fusos horários da sede. O Google estava “preparado para confiar em mim. Eles sabiam que eu não faria corpo mole”.

Bak pode ser um gênio da informática, mas só foi ter contato com um computador na universidade. “A sala de computadores no colégio era um lugar escuro e fedorento, cheio de nerds”, diz ele. “Eu gostava de esportes. Mergulho de trampolim, que a propósito é muito legal. A entrada no mundo dos nerds ocorreu mais tarde.”

Talvez por ser um nerd tardio, Bak nunca participou das lendárias sessões de codificação movidas a café que duravam noites inteiras. Mas isso também pode ter ocorrido por causa do tipo de programa em que ele se especializou: a “virtual machine” (máquina virtual), um conceito explorado originalmente na década de 1970 pelo cientista da computação Gerald Popek e seu projetista associado Robert Goldberg. As máquinas virtuais são o que parecem ser – cópias de máquinas reais, capazes de rodar um único programa de computador ou toda uma série de programas. O navegador Chrome cai nessa segunda categoria. O V8, a máquina virtual de Bak, junta peças de código que aparecem em programas diferentes para eliminar as duplicações e permitir que os aplicativos da internet rodem mais rápido.

“As máquinas virtuais são um animal estranho”, diz Bak. “Não há solução perfeita; em vez disso, você aperfeiçoa os ‘pontos ideais’. É algo que exige muita habilidade. Um jogo longo que você não pode estragar. Há uma carga de trabalho constante, de modo que eu sempre paro para jantar. Você pode ter uma vida normal.” Para Bak, isso significa família e privacidade. A questão do equilíbrio trabalho/vida particular surge várias vezes em nossa conversa – e embora não seja antiamericano, ele claramente prefere o estilo de vida dinamarquês. “Nos Estados Unidos, existe uma agressividade, o nível extra de autoconfiança que é necessário. O estilo europeu é menos agressivo. Mas nos EUA você pode ser promovido e permanecer em contato com o lado técnico. Na Europa, você vira um administrador de papéis. É difícil sujar os dedos de tinta.” Ao trabalhar para o Google na Dinamarca, Bak queria ter o melhor de dois mundos.

Bak resolveu chamar seu projeto de V8 por brincadeira: o motor V8 é o que você pode encontrar montado sob o capô de um automóvel. “O Google é legal assim. Não importa o nome de trabalho do projeto , esse é o nome que ele recebeu. Não existe intervenção do marketing para que o projeto receba um determinado nome”, diz.

Desde o primeiro dia no projeto do Google, Bak recrutou a ajuda de um de seus ex-alunos, Kasper Lund. Mais jovem, mais baixo e mais sociável, Lund aceitou ir até a fazenda de Bak para trabalhar. Ele também tem outra função – entreter Bak. Lund e seu chefe competitivo adquiriram o hábito de intercalar o trabalho com disputas de pingue-pongue e tênis no console de videogame Wii. Quem sempre ganha?, pergunto. Bak responde: “Pergunte ao Kasper”. Ah, então é o Kasper? “Não”, responde ele. Mais tarde, Bak deixa escapar: “Ele é melhor jogador do que eu, mas eu ganho.” A relação dos dois passou de professor-aluno para algo mais próximo de colegas, mas não muito. Um amigo a descreve como a relação entre um mago e seu aprendiz.

Muitos programas de computador baseiam-se em versões anteriores ou códigos relacionados, mas o V8 começou do zero.

Quando volto a encontrar Lund em minha passagem pela Dinamarca, ele fica muito animado ao reforçar esse fato: “é a forma de codificação mais pura que existe”, diz. Bak nitidamente concorda – enquanto Lund fala, ele não para de sorrir.

Conforme o projeto do V8 foi se desenvolvendo, Bak e Lund passaram da codificação na fazenda para um escritório na universidade em Aarhus, onde Bak leciona. É um percurso que leva 30 minutos de bicicleta e o exercício se encaixa bem na filosofia de Bak, de equilibrar o trabalho com a qualidade de vida.

O escritório na universidade pode estar bem longe do quartel-general da empresa – o Googleplex, que fica na Califórnia -, mas ainda assim tem a cara do Google. Cadeiras coloridas e pufes estão espalhados pela área de entrada, que leva a duas salas principais onde trabalha uma dezena de pessoas. Mas não há cantina, apenas uma cozinha com um aparelho que distribui nozes e uma geladeira cheia de garrafas d’água e Diet Coke. Bak introduziu uma política “nada de açúcar”: “Não é algo ao pé da letra – você tem o açúcar natural das frutas. Mas nada de chocolates e, obviamente, açúcar”.

É um testamento à lealdade no escritório que todos concordem com este regime. Todos também parecem andar de bicicleta e deixam o trabalho por volta das 17 horas. “Começamos cedo e quando você fica cansado não há sentido em insistir, de modo que vamos para casa”, diz Lund.

Mas e quanto à comunicação com o pessoal do Google? Quando Bak, Lund e equipe deixam o escritório às 17 horas, horário de Aarhus, ainda é 9 horas em San Francisco. Será que eles estão tirando vantagem da tendência no Vale do Silício de se trabalhar 24 horas por dia? Ou realmente não é necessário ficar em contato com a sede? Lund diz que e-mails transmitidos durante a noite funcionam bem na maioria das situações. No dia de minha visita, Bak iria participar de uma conferência telefônica depois que o resto da equipe já tivesse ido embora. Ele tenta amenizar suas opiniões sobre isso, mas está claro que preferiria não ter de participar.

O trabalho de programação pode ser muito solitário. Embora Bak e Lund trabalhem bem próximos, ainda há uma sensação de isolamento do resto do mundo. Você cria códigos, testa, refina, cria mais e continua assim até que alguma coisa funcione como você precisa que funcione. Para Bak, é muito simples e muito isolado. E então, por algum motivo, o resto do mundo quer entrar – saber sobre você e seu trabalho.

Bak valoriza sua privacidade. Ele fica visivelmente incomodado quando o fotógrafo tira uma foto sua em casa. Mas quando eu digo que ao digitar seu nome no Google temos páginas e mais páginas relacionadas ao ciclista homônimo e sugiro que isso deve protegê-lo da atenção indesejada, ele dá de ombros e diz: “Estou velho demais para me importar com o que as pessoas vão dizer a meu respeito”.

O que o aborrece são as pessoas que não entendem seu trabalho – ou “a tecnologia”, como ele diz. Um exemplo é um artigo publicado sobre ele, no qual o jornalista confunde Java e JavaScript (a primeiro é uma linguagem de programação; o segundo é uma linguagem de script, que ensina como um computador deve executar uma atividade). Rimos com o erro e por um momento sinto que Bak e eu nos entendemos.

O mundo tomou conhecimento do Chrome de uma maneira pouco comum. Tudo começou com uma história em quadrinhos especialmente encomendada e divulgada antecipadamente pelo Google – aparentemente por engano. Houve várias ações de relações públicas para amparar a notícia, envolvendo conferências telefônicas convocadas às pressas e postagem em um blog para explicar o que havia acontecido, seguido de uma entrevista à imprensa e demonstrações do produto na Googleplex.

Em meio à agitação sobre os motivos do Google para lançar um browser e se o vazamento havia sido deliberado, poucas pessoas prestaram atenção à história em quadrinhos. Apesar de ter sido criada por Scott McCloud (uma lenda no mundo dos gibis), trata-se de uma história hermética. Fala-se de JavaScript (e não Java!), CPU e vazamento de memória – detalhes do mundo da informática sobre os quais a maioria das pessoas não quer saber. Mas a história mostra o pensamento por trás de muitas das características do Chrome e a maneira como equipes separadas resolveram cada parte do quebra-cabeça. Bak e Lund aparecem pela primeira vez rapidamente na página dois, mas é na página 13 – onde somos apresentados “à equipe do V8 na Dinamarca” -, que se explica o desenvolvimento dessa “máquina virtual”.

Não há menção dos motivos que levaram o V8 a ser construído em um continente diferente do da sede do Google. Lund e Bak gostam da história. Ela transcorre totalmente dentro das paredes do escritório de Aarhus. “No começo, eu achei uma ideia estranha”, diz Bak. “Mas depois percebi que foi brilhante. Comparada ao relatório técnico que normalmente você tem, é dez vezes melhor. As pessoas acharam divertido.”

Suspeito que um dos motivos pelos quais os dois gostaram foi que a história os trata como iguais – embora Lund seja apresentado como fisicamente desajeitado comparado a Bak. “Estou parecendo um garoto de 15 anos”, diz Bak. Ele se permite um sorriso.

O Chrome atraiu mais de 10 milhões de usuários nos primeiros 100 dias. Embora seja um número impressionante, ele ainda representa apenas 1% do uso dos browsers. Ainda vai demorar um tempo até que ele possa competir com o Firefox, o Internet Explorer e outros. Em dezembro do ano passado, o Google anunciou que o Chrome havia encerrado a fase de desenvolvimento, ou Beta, estando pronto para ser usado como um browser pré-instalado em alguns PCs. Isso poderá aumentar rapidamente o número de usuários. Além disso, a batalha antitruste da Microsoft na Comissão Europeia sobre, entre outras coisas, como seu navegador Internet Explorer é integrado ao sistema operacional Windows, poderá dar a concorrentes como o Google a chance de ganhar terreno.

Legislação e participação de mercado à parte, o desafio técnico foi lançado. “A Microsoft terá de fazer algo melhor que o V8”, diz Bak. A maioria dos observadores duvida que eles conseguirão fazer isso no curto prazo: em testes, o V8 processa a linguagem JavaScript 56 vezes mais rápido que a versão mais usada do Internet Explorer.

“Começamos com um padrão elevado”, diz Bak. Então, ele acrescenta, com modéstia: “Tem sido um sucesso legal.”

Mesmo que a história em quadrinhos sobre o Chrome não tenha lançado Bak ao estrelato instantâneo, ele ficou mais conhecido nos últimos meses. Mais e mais pessoas querem saber sobre o homem que está por trás do Chrome.

Ele prefere criar máquinas virtuais a administrar o escritório em Aarhus e prefere não fazer nada a conversar com jornalistas, mas isso é parte do jogo e ele aceita. Isso posto, Bak ainda está longe do nível do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, ou de Bill Gates. Ele recebeu algum e-mail de um fã depois da história em quadrinhos?, pergunto. Ele ri: “Não. Mas também não recebi nenhum e-mail mal-educado.”