Só pechinchas movem vendas de terras
Mônica Scaramuzzo, de São Paulo

O grupo argentino Calyx Agro, que tem a Louis Dreyfus Commodities como um de seus principais acionistas, e a Radar, empresa de terras controlada pela Cosan, estão negociando compra de terras agrícolas para expandir seus negócios no Brasil. Essas duas empresas são exceção neste mercado que estava se preparando para decolar antes da crise financeira global, mas que teve seu ímpeto freado.
“Há grupos que conseguiram se capitalizar antes da crise e que estão em condições de fechar negócios”, afirmou Lucílio Alves, analista do mercado de terras do Centro de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Cepea). Exceto pelas boas oportunidades neste mercado, só há vendas desses ativos na “bacia das almas” para cobrir dívidas, segundo empresários ouvidos pelo Valor.
O mercado de terras ficou praticamente parado nesses últimos meses por conta da turbulência global. Em 2008, os preços das áreas agrícolas fecharam com ligeira queda, segundo levantamento da AgraFNP. No bimestre novembro-dezembro, o valor médio nacional do hectare ficou em R$ 4.330, ante os R$ 4.341 do bimestre anterior, um recuo de 0,25%. Na comparação com o bimestre novembro-dezembro de 2007, o valor médio nacional das terras teve alta nominal de 8,3%.
“Não vejo esse mercado se reaquecendo ainda. O que se vê atualmente, embora em pequena escala, é a celebração de contratos firmados antes. Os negócios agora estão parados”, afirmou uma empresa especializada em compras de terras agrícolas.
As áreas voltadas para a cultura de cana foram as que apresentaram os maiores recuos. É justamente para aproveitar essa oportunidade que a Radar, do grupo Cosan, está negociando a compra de cerca de 20 mil hectares de terras para cana na região central do Estado de São Paulo, apurou o Valor. As áreas para cana recuaram porque a commodity registrou forte baixa no mercado internacional, sobretudo na safra 2007/08. Agora, mesmo com a recuperação dos preços do açúcar, o interesse na expansão canavieira ainda é tímido.
O grupo Calyx Agro tinha planos para alcançar 100 mil hectares de terras agrícolas no Brasil até o fim do ano passado. Mas sua meta foi frustrada. A companhia fechou o ano com cerca de 30 mil hectares ocupados com grãos e está negociando neste momento a compra de outros 20 mil hectares na região do Mapito – nova fronteira agrícola que compreende os Estados do Maranhão, Piauí e Tocantins, afirmou Axel Hinsch, CEO da companhia. Segundo ele, a companhia também está olhando oportunidades no oeste baiano.
No ano passado, a americana AIG Capital Investments adquiriu 37% de participação na Calyx. Essa operação foi feita antes da crise financeira se agravar, quando os planos do grupo era expandir seus negócios na área de grãos no país. A empresa, que também negocia propriedades rurais na Argentina e Uruguai, possui terras no país na região do oeste da Bahia e Cerrado brasileiro. “Estamos esperando o desenrolar da crise para traçarmos nossa expansão”, disse Hinsch.
Mesmo com a fuga dos investidores em ativos rurais, os preços de terras agrícolas continuam firmes no Brasil, principalmente nas regiões produtoras de soja e áreas de pastagens. Segundo Lucílio Alves, analista do Cepea, a venda de terras não é feita de uma hora para outra. “Ninguém conta com a venda de terras para pagar uma dívida de curto prazo, uma vez que o pagamento nunca é feito à vista.”
As apostas do mercado são de que o marasmo deve continuar ainda neste trimestre, mas começará a ficar mais agitado a partir do segundo trimestre, quando os produtores de grãos já terminaram a colheita. Empresas ouvidas pelo Valor acreditam que parte desses produtores poderá vender terras para liquidar dívidas ou até para financiar a próxima safra. “O preços das terras não caíram o que tinham que cair. Vamos esperar o melhor momento para voltarmos ao mercado”, disse uma outra empresa especializada em compras de terras.