União Química e Biomm vão produzir cristais de insulina

André Vieira, de São Paulo

Quase dez anos depois da venda da Biobrás, o Brasil voltará a ter uma empresa nacional de capital privado para a fabricação dos cristais de insulina, a matéria-prima voltada à produção do hormônio usado no tratamento do diabetes.
Marisa Cauduro / Valor

Fernando Castro Marques, da União Química: mercado público ficou nas mãos de duas empresas estrangeiras
A Biomm, empresa brasileira dona de patentes para a produção do princípio ativo e sucessora da Biobrás, vai transferir à brasileira União Química a tecnologia de produção dos cristais de insulina.
A intenção da União Química é investir cerca de R$ 150 milhões em uma nova unidade, que será erguida aproveitando a infra-estrutura da recém-inaugurada fábrica do laboratório, no distrito industrial JK, em Brasília (DF).
A expectativa é que a produção não só dos cristais mas também da insulina formulada comece em até três anos, segundo disse ao Valor Fernando de Castro Marques, presidente e dono da União Química.
“Houve um retrocesso no Brasil com a venda da Biobrás e agora queremos retomar a produção nacional”, disse Castro Marques. “O mercado público de insulina ficou nas mãos de um duopólio”, afirmou ele, referindo-se às farmacêuticas estrangeiras, a dinamarquesa Novo Nordisk e a americana Eli Lilly.
A fábrica e a marca Biobrás foi vendida à Novo Nordisk em 2001 depois de uma longa disputa para o fornecimento ao governo federal. Mas houve uma cisão nos ativos da Biobrás – como patentes e cientistas – que se transferiram para a Biomm. A empresa é controlada pelo ex-ministro Walfrido dos Mares Guia e seu cunhado Guilherme Emerich, entre outros. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDESPar) possui 15% de participação no capital.
O acordo entre a Biomm e a União Química está previsto para ser anunciado hoje pelos donos das empresas e seus representantes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanhado de ministros. A intenção do grupo é convencer o BNDESPar a entrar na União Química.
A capacidade de produção dos cristais de insulina no acordo negociada entre a União Química e a Biomm poderá começar com 800 quilos e chegar a 1,5 mil tonelada por ano. Segundo Castro Marques, esse volume seria suficiente para atender o mercado doméstico, fornecendo não só para o governo, mas também ao setor privado.
“O mercado privado também é muito interessante. Em quatro anos, ele cresceu de R$ 60 milhões para R$ 160 milhões”, disse Eduardo Rocha, diretor comercial da União Química. Além do licenciamento da tecnologia, o acordo estabelece que a União Química pagará royalties à Biomm pelas vendas de insulina.
Nos últimos três anos, a americana Eli Lilly venceu a licitação federal para o fornecimento de insulina humana, batendo as ofertas da Novo Nordisk, antiga fornecedora do medicamento. Na tomada de preço anual de 2008, o laboratório americano se dispôs a fornecer 12,6 milhões de frascos ao preço de R$ 5,48 por unidade. Isso representa um gasto anual de quase R$ 70 milhões.
O valor já foi maior. Em 2007, a Lilly forneceu 10,7 milhões de frascos ao preço de R$ 9,18, o que significava um gasto de quase R$ 100 milhões. Essa queda, segundo apurou o Valor, aconteceu devido à valorização do real em relação ao dólar. A Lilly traz a insulina do exterior. A Novo Nordisk, embora tenha fábrica em Montes Claros (MG), importa os cristais que são formulados no país.
A União Química fechou 2008 com vendas de R$ 342,9 milhões, segundo dados do IMS Health, que audita os negócios realizados no varejo farmacêutico. Isso representou crescimento de 19,9% sobre o desempenho do ano anterior. Em unidades, o laboratório ficou na 10ª posição em vendas, em dezembro, segundo dados da mesma empresa.

Anúncios