Aeroportos entram na mira das construtoras
Yan Boechat, de São Paulo
12/11/2008
 
 

Apesar de ainda estar muito mais próximo de uma promessa do que algo realmente concreto, o programa de privatização dos aeroporto brasileiros, que nem ao papel ainda chegou, está mobilizando as principais construtoras brasileiras. Cada vez mais, decididas a atuar na área de operação dos projetos em que estão envolvidas, boa parte destas companhias já estão conversando entre si, buscando potenciais parceiros estratégicos e estudando os possíveis cenários que podem surgir dos estudos que serão feitos nos próximos meses. “Pouca gente está vindo à tona porque ainda está tudo muito nebuloso, mas ninguém vai querer ficar de fora dos aeroportos, é dinheiro demais envolvido”, diz o executivo de uma grande construtora brasileira habituada a se manter distante dos holofotes.
Por enquanto o que há de concreto no eventual programa de privatização dos 67 aeroportos administrados pela Infraero no país é uma grande boa vontade do governo federal em transferir ao menos parte deles para a iniciativa privada. Ainda não há nem esboço de qual modelo será definido, quais aeroportos continuarão sobre o controle do Estado e que tipo de investimentos o governo vai exigir.
Nesse momento, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) está realizando um estudo sobre os modelos de concessão que podem ser aplicados na construção de novos aeroportos. Mas esse levantamento deve ter pouca relevância, já que o Executivo determinou que o BNDES faça um estudo amplo tratando de modelos de concessão ou privatização dos aeroportos novos e também dos já existentes. A previsão é que esse estudo, que ainda não teve as consultorias que o farão selecionadas, fique pronto no segundo semestre de 2009.
Apesar de tantas indefinições, empresas como Camargo Corrêa, Odebrecht, WTorre, OAS e Andrade Gutierrez têm se movimentado na surdina para estarem preparadas quando as regras forem definidas. Para o mercado, estas empresas devem liderar os possíveis consórcios que serão criados para concorrer nos leilões de concessão. “É claro que todos vão buscar parceiros, tanto para minimizar os riscos de um investimento de alto porte como para ter alguém que entenda de áreas que não se conhece tão bem”, diz o executivo de uma dessas empresas.
A mais adiantada nesse momento é a Camargo Corrêa, que desde o ano passado se associou a chilena IDC e à suiça Unique para criar a A-port, uma companhia especializada em administração aeroportuária. A empresa já atua em oito aeroportos na América do Sul e no Caribe, mas por aqui ainda tem uma presença tímida. Apenas administra o estacionamento do aeroporto de Congonhas. “A aliança foi feita pensando no futuro, a desestatização da infra-estrutura aeroportuária no Brasil é inevitável e muitas empresas estrangeiras estão se preparando para chegar”, diz Roberto Deutsch, diretor-geral da A-port, única das empresas declaradamente interessadas nos aeroportos do país a falar abertamente com o Valor sobre o tema.
Tanto a A-port como suas futuras concorrentes não estão interessadas em todos os aeroportos administrados pela Infraero. Sob sua mira estão apenas 10, no máximo 11, terminais, os maiores e mais bem localizados no país. Entre eles, inevitavelmente, estão Guarulhos e Congonhas, em São Paulo; Santos Dumont e Galeão, no Rio; e o aeroporto de Brasília. “Entre tantas questões que precisam ser resolvidas, essa é uma delas”, diz Deutsch. “Ninguém vai querer ficar com os deficitários”. Na sua opinião, como na de outros executivos atentos a esse processo, dificilmente algum edital será lançado antes do segundo semestre de 2009. “É um processo lento, não há o que fazer senão se preparar para a batalha que se seguirá”, diz um provável concorrente de Deutsch.