Longe dos holofotes, mundo árabe desponta como potência financeira mundial
Fonte: InfoMoney 09/12 20h21

SÃO PAULO – “Gigante asiático”, “futura potência mundial”, “nova locomotiva do mundo” são alguns dos termos freqüentemente utilizados à China. Há muito o enorme potencial do país já vem sendo atentado por empresários, economistas e investidores ao redor do globo, de olho no imenso mercado consumidor, na extensa gama de recursos naturais e na barata mão-de-obra oferecida por lá.

A atual crise nas economias desenvolvidas no mundo – com cerne no mercado imobiliário norte-americano – somente contribui para a tese de que o futuro da economia internacional está no continente asiático. Se a afirmação é verdadeira ou não, somente o tempo dirá. Entretanto, outra região do mundo também vem despontando, mais especificamente no sistema financeiro, e sem ocasionar todo o burburinho como faz a economia chinesa.

Longe dos holofotes
Até então despercebidos dos holofotes dos mercados, os países árabes vêm demonstrando a força de suas instituições financeiras na atual crise do subprime. Símbolos da hegemonia norte-americana, grandes bancos de Wall Street vêm recorrendo a fundos soberanos árabes – Abu Dhabi, Kuwait, entre outros – para salvar suas contas do buraco. Citi e Merrill Lynch são apenas alguns dos exemplos mais notórios de tal cenário.

A reviravolta no complexo tabuleiro do jogo de xadrez internacional não é inédita: há muito o sistema financeiro em países como Arábia Saudita e Irã vem paulatinamente se fortalecendo. As atuais turbulências apenas revelam um fenômeno que ocorria encoberto sob panos. Afinal, a essência do desenvolvimento financeiro mundial deu-se, na verdade, sob a égide da cultura árabe, muitos séculos atrás.

Que o potencial do sistema financeiro árabe é enorme, há poucas dúvidas. Muitas delas alimentadas pelo capital originário das atividades petrolíferas, instituições financeiras não param de surgir na região. A efervescência é visível a qualquer um. Basta ver o salto dado por países como Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos nos últimos anos. Todavia, o Ocidente assiste a tal fenômeno imerso em um universo de dúvidas e incertezas.

A principal delas, a forte influência da religião sobre a condução dos negócios. Companhias envolvidas em segmentos considerados imorais pela religião islâmica, como pornografia e jogos, são proibidas de receber ou efetuar empréstimos no mercado financeiro árabe, assim como abrir seus respectivos capitais. Mas a questão é bem mais complexa que isso.

A “mão invisível” islâmica
Todo o sistema financeiro no mundo árabe é regido pela chamada sharia, pilar da esfera jurídica árabe, determinada primariamente pelos princípios do islamismo. A sharia é, na verdade, um sistema difuso, praticamente um mosaico de obras históricas e conceitos de jurisprudência que determinam os mais diversos aspectos do dia-a-dia do seguidor do islamismo, como questões sociais, higiene, política e, sim, economia.

Seguindo todo um raciocínio inerente ao islamismo, a sharia condena a especulação e a cobrança de juros abusivos no mercado. Todavia, a proibição é altamente subjetiva. Desta forma, a maioria dos países árabes dispõe de órgãos e colegiados para aplicar as leis e princípios da sharia sobre o mercado financeiro. Daí o estranhismo do Ocidente frente ao sistema financeiro árabe, quase que dotado de uma dinâmica própria, dado as restrições que lhe são impostas pelos preceitos religiosos.

Mecanismos altamente complexos incorrem em grande burocracia e custos de transações elevados, elementos tidos como grandes empecilhos a um maior desenvolvimento do sistema financeiro árabe. Ademais, limitadas pela proibição à especulação, empresas freqüentemente sofrem restrições quanto à composição de seus caixas. De modo geral, as companhias árabes não podem ter mais de 33% de seu valor de mercado em dívidas.

Com tais restrições quanto à disponibilidade e tipos de instrumentos em que podem aplicar seus capitais, muitas instituições árabes são acusadas por analistas de terem seus portfólios muito mais concentrados e, portanto, muito mais expostos a riscos, do que as instituições financeiras ocidentais. Tal prerrogativa ganha força na medida em que o sistema moderno financeiro árabe, relativamente jovem, ainda não passou por grandes crises, não foi “posto à prova”.

Perspectivas e reformas
Contudo, as críticas são rebatidas por muitos. Sem grande competição, os grandes bancos da região conseguem desfrutar de margens maiores, o que de certa forma, compensa os maiores custos. Ademais, a perspectiva de crescimento é tamanha que os obstáculos impostos pela fronteira religiosa são ofuscados. A indústria financeira árabe movimenta cerca de US$ 4 trilhões em ativos, de acordo com cálculos recentemente realizados pela Standard & Poor’s.

Montante este que só tende a crescer, na visão de Michel Alaby, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. De fato, reformas vêm sendo amplamente conduzidas pelos países árabes, no intento de prover um quadro corporativo mais estável e seguro. O governo árabe-saudita, por exemplo, implementou neste ano medidas que reduziram o tempo de criação de uma nova empresa no país em 3 dias.

O emirado de Dubai, segundo maior dos que compõem os Emirados Árabes Unidos, criou o Centro Financeiro Internacional de Dubai, atraindo, por meio da isenção fiscal, todo um parque financeiro de peso para a região, com instituições como Merrill Lynch, Deutsche Bank e outros grandes bancos de investimentos, e alimentando o desenvolvimento de sua própria parcela de instituições financeiras nacionais.

Brasil: à margem dos frutos
A ascensão de uma nova esfera financeira no panorama internacional somente tende a ser benéfica, na medida em que incorre em novas fronteiras a serem exploradas e novos suportes ao comércio e economia global. Mas na opinião de Alaby, o mercado brasileiro ainda deve esperar muito para colher eventuais frutos do próspero sistema financeiro árabe.

“Faltam tratados mais claros e objetivos, que proporcionem maior segurança ao investimento estrangeiro no País. A complicação tributária brasileira também é outro fator que afugenta os investimentos árabes”, afirma.