Incorporações em alta

A compra da Company pela Brascan Residential Properties, anunciada ontem, é prova de que a tão esperada onda de consolidação entre as construtoras, de fato, começou. Mais do que isso, sinaliza que o setor está criando um modelo de aquisições novo para o mercado brasileiro: as transações envolvem pouco dinheiro vivo e são estruturadas por meio de desenhos societários mais complexos e sofisticados, envolvendo, sempre, troca de ações.
Ao contrário da Gafisa, que não colocou dinheiro para adquirir a Tenda, a Brascan irá desembolsar R$ 200 milhões em dinheiro, mas a parte mais importante do negócio ficou por conta de uma engenharia financeira na qual a Brascan faz uma troca de 1 ação ordinária da Company por 1,069 ação da Brascan. Os acionistas da Company receberão 77 milhões de ações ordinárias da Brascan. Após a conclusão da transação, o total de ações ordinárias da Brascan será de 262.006.474 ações, das quais aproximadamente 42,7% estarão no mercado.
O negócio também indica um novo caminho que deve ser trilhado pelas empresas de construção. A partir de agora, mais do que procurar um parceiro com um portfólio complementar, as empresas buscam na aquisição fôlego e respeito para encarar o mercado de ações. “Queremos mudar de patamar e sair do grupo das empresas médias que acabam tendo desconto de 30% a 40% no preço das ações pela falta de liquidez”, disse Nicholas Reade, diretor-presidente da Brascan e que continua no comando da nova empresa.
Ontem, durante conferência com jornalistas e analistas, a Brascan procurou enfatizar a envergadura da empresa que resulta da combinação de Brascan e Company. A nova companhia teria lucro líquido de R$ 210 milhões, um banco de terrenos de R$ 17 bilhões e patrimônio líquido de R$ 1,6 bilhão. “Como um dos fatores que os bancos analisam é o patrimônio líquido, juntas, as empresas conseguem ter mais acesso a crédito bancário, o que tem sido um problema para o setor”, diz Fabiana Fakhoury, diretora da Alvarez & Marsal.
Mas a dúvida que fica é se a nova Brascan (a Company deixa de ser listada) vai conseguir a liquidez esperada com a transação. No dia 9 de setembro, a Brascan teve um volume de negócios de R$ 270 mil e a Company, de R$ 600 mil. Juntas, movimentaram menos de R$ 1 bilhão. A Cyrela movimentou R$ 37 milhões, a Gafisa, R$ 20 milhões e a MRV, R$ 12 milhões.

Embora as duas empresas atuem sem segmentos de média e alta renda e no mercado de escritórios corporativos, com a compra da Company, a Brascan – que tem forte atuação no Rio e no Centro-Oeste após a compra da MB Engenharia – consegue aumentar a sua atuação em São Paulo. “Quem não é grande em um mercado como São Paulo, não consegue ser uma das grandes do setor”, disse Reade.  Os novos controladores mantiveram as estimativas de crescimento das duas companhias que, somadas, passam a ser de R$ 3,2 bilhões. O problema é que ambas estavam atrasadas e até agora só cumpriram 25% do prometido, ou R$ 840 milhões. “Temos lançamento de R$ 650 milhões para o segundo semestre”, justifica Luiz Rogério Tolosa, diretor de RI da Company.
Os analistas não consideraram o negócio positivo para a Company. O valor pago por ação da Company foi de R$ 9,19, 9% abaixo do preço do fechamento de mercado no dia anterior ao anúncio. No mercado de construção, porém, fala-se que os sócios da Company já estavam há tempos procurando um parceiro. A empresa, que estaria no grupo das que não se adaptaram ao mercado de capitais, quase fechou com a Helbor, mas o negócio não foi para frente por conta do nome da nova empresa. “Fechamos com uma companhia 100% profissional e com critérios objetivos”, disse Tolosa. “Conseguimos uma magnitude muito maior nesse negócio. ”