Lojas não precisam mais ter contas em dois bancos, dois telefones e dois terminais para aceitar cartões da Visa e Mastercard.

Há mais de uma década o setor de cartões cresce no Brasil a taxas superiores a dois dígitos. O risco de inadimplência do cheque e a falta de segurança em portar dinheiro vivo funcionam como incentivos naturais para que cada vez mais lojistas passem a aceitar o pagamento com cartão. Nem por isso a relação entre empresas de cartão e comerciantes deixa de ser conflituosa em alguns momentos. Mesmo as grandes empresas de varejo, que possuem maior poder de negociação, já se queixaram dos custos envolvidos na aceitação dos cartões.

Se ainda não mostraram disposição para reduzir acentuadamente as taxas cobradas das lojas, as duas maiores empresas de processamento de transações com cartão, a Visanet e a Redecard, apostam em aumentar as facilidades para a aceitação dos plásticos como forma de acelerar a expansão da base de estabelecimentos credenciados. Desde julho, as lojas não precisam mais ter duas contas bancárias, uma para receber o dinheiro das transações realizadas com Mastercard e outra para a Visa. Além disso, já é possível para o comerciante alugar um só terminal e contratar apenas uma linha telefônica para receber pagamentos das duas bandeiras.

As mudanças já surtem impacto significativo na expansão da rede credenciada. Até junho, o lojista que só tinha conta corrente no Bradesco, Banco do Brasil e Real (os principais acionistas da Visanet) não conseguia receber o dinheiro dos pagamentos realizados com Mastercard (processados pela Redecard). Já quem possuía conta no Itaú, Unibanco e Citibank (acionistas da Redecard) precisava se tornar correntista de outra instituição financeira para receber os pagamentos com cartão Visa (processados pela Visanet). Desde julho, todos os pagamentos já podem ser depositados em uma única conta.

A Redecard informou que com o domicílio bancário único o número de estabelecimentos comerciais credenciados em julho cresceu 90% em relação ao mesmo mês do ano passado. Esse percentual é bastante superior à taxa mensal de crescimento que vinha sendo observado no primeiro semestre, de 40% a 50%. “Essa medida é boa para as empresas de cartão que vão ampliar a base de clientes, para o lojista que pode ter um custo menor e para o consumidor que terá mais comodidade para pagar suas compras em estabelecimentos em que hoje o cartão não é aceito”, diz o presidente da Redecard, Roberto Medeiros.

“O domicílio único é um sucesso muito grande”, confirma o presidente da Visanet, Rômulo de Mello Dias, sem revelar números. Tanto Visanet quanto Redecard afirmam possuir 1,3 milhão de estabelecimentos comerciais credenciados a aceitar pagamentos com cartão. Com os bons resultados recentes, a Redecard revisou sua projeção de crescimento da base de terminais de pagamento (conhecidos como POS) de 15% para 24% neste ano.

Outra medida que deve elevar a penetração dos cartões nos próximos anos é o compartilhamento de terminais de pagamento. Até o início deste ano, se uma loja quisesse aceitar os cartões Visa, Mastercard e American Express precisaria alugar três terminais diferentes – um da Visanet, outro da Redecard e o terceiro da American – e contratar também três linhas telefônicas para a transmissão simultânea dos dados capturados. As empresas, no entanto, passaram a compartilhar esses terminais em maior escala nos últimos meses. Hoje já existem 7.500 terminais compartilhados, que atendem principalmente a demanda de lojas da periferia de grandes cidades, de municípios do interior e de cidades turísticas, além de profissionais liberais e taxistas. O custo do aluguel de várias máquinas e da contratação de várias linhas telefônicas inviabilizaria a aceitação de cartão nesses tipos de negócio.

Redecard e Visanet alertam, entretanto, que esses terminais compartilhados não atendem às necessidades de todos os seus clientes. Cada empresa tem que embarcar seu próprio software nas máquinas. Por isso, os terminais compartilhados serão capazes de processar transações de crédito e débito, mas não haverá capacidade para fazer também outros tipos de transações, como recarga de créditos de celular e pagamentos parcelados no débito ou com tíquetes eletrônicos. Dessa forma, o compartilhamento não vai atender às necessidade de restaurantes, por exemplo.

Ao desburocratizar a aceitação de cartões, as empresas de cartão de crédito também atendem a um desejo do governo. O Banco Central acredita que a concorrência no setor ainda é incipiente e que as taxas cobradas são elevadas. A expectativa é de que nas próximas semanas técnicos do BC encaminhem aos ministérios da Justiça e da Fazenda um estudo com propostas para regular o setor de forma a tornar os cartões mais vantajosos para comerciantes e consumidores. O conteúdo desse documento que está sendo produzido pelo BC ainda é desconhecido. No entanto, é provável que algumas das medidas que devem ser defendidas pelo banco, como o compartilhamento de terminais, já terão sido implementadas em larga escala quando as novas regras do governo entrarem e vigor.