Pedido de recuperação da Agrenco ignora abertura de capital

O investidor da Agrenco que ler o pedido de recuperação judicial das subsidiárias brasileiras do grupo não entenderá o que foi feito do dinheiro que entregou à companhia, em 25 de outubro do ano passado, quando a empresa listou ações na Bovespa e obteve R$ 666 milhões.
O documento, que está aberto ao público no endereço eletrônico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), não menciona a capitalização ocorrida no ano passado – a maior já obtida pela companhia. Foi solicitada a abertura de processo para Agrenco Brasil, Agrenco Serviços, Agrenco Administração e Agrenco Bioenergia.
A empresa sofre dificuldades desde o começo deste ano e a situação se agravou depois da prisão dos três sócios controladores, em 20 de junho, na Operação Influenza da Polícia Federal (PF). Os executivos, soltos em julho, são suspeitos de fraudes, desvio de recursos da empresa e sonegação fiscal, entre outros.
Desde então, a empresa negocia um aporte de capital com seis potenciais interessados em ficar com as operações. O processo de negociação vem sendo conduzido pelo banco de investimentos JP Morgan. Os próprios interessados pediram pela recuperação, com intuito de proteger a empresa dos credores e, especialmente, os novos recursos que eventualmente investirão na empresa.
O pedido de recuperação judicial, registrado em 27 de agosto, feito pelo escritório Felsberg & Associados, não trata da abertura de capital da companhia. Ao contrário, trata 2007 como um exercício de escassez de recursos. “Vale lembrar e ressaltar, para que não restem dúvidas sobre sua crise econômico-financeira, que as requerentes além de se encontrarem em momento de necessidade premente de caixa para finalizar a construção de suas fábricas encontram-se recuperando o fôlego despendido durante o ano de 2007, quando sofreu grandioso prejuízo e falta de caixa, sendo óbvio que o lucro obtido no primeiro trimestre deste ano foi utilizado para recompor o caixa corroído no último exercício social.”

Thomas Felsberg, advogado da companhia, alega que os dados da capitalização na Bovespa são “públicos e amplamente conhecidos” e que não havia necessidade de discorrer sobre o tema na pedido de recuperação.
Segundo Marco Antonio de Modesti, gerente de relações com investidores da empresa, o cenário de 2007 agravou-se no fim do exercício, portanto, nos dois meses posteriores à oferta de ações (BDR) na bolsa, feita pela holding Agrenco Limited, sediada em Bermudas .
Os recursos obtidos foram direcionados, especialmente para pagamento de parte das dívidas (67,5% do valor obtido) e reforço no capital de giro (24,5%). A companhia esperava captar perto de R$ 1 bilhão. Quando essa era a expectativa, 35% do novo dinheiro seria direcionado a investimentos. Porém, diante da menor captação, os recursos foram concentrados na estratégia financeira.
A companhia esperava pagar parte de suas dívidas e, na seqüência, obter novos empréstimos, em condições melhores. Entretanto, de acordo com o executivo, o agravamento da crise hipotecária nos Estados Unidos iniciada em julho de 2007, e os problemas enfrentados pela Selecta, do mesmo setor, dificultaram a obtenção de novos recursos.
Por conta disso, a companhia vinha, desde fevereiro, estudando a possibilidade de obter recursos de um novo sócio. No último balanço publicado pela holding estrangeira, do primeiro trimestre, o grupo tinha R$ 1,2 bilhão em dívidas – com 80% dos vencimentos concentrados no curto prazo – e apenas R$ 52 milhões em caixa.

O pedido de recuperação entregue à Justiça, porém, credita as dificuldades financeiras à prisão dos sócios e as dificuldades de credibilidade da companhia. “Dentro de um cenário normal de atividades e (principalmente) de credibilidade, tal endividamento seria absolutamente administrável pelas requerentes, cujo faturamento seria mais do que suficiente para quitar tanto os juros quanto o principal de seu custo financeiro, nos moldes contratados”, diz o documento.
A gestão do negócio está nas mãos de José Guimarães Monforte, James Wright e Cássio Casseb, que coordenam conjuntamente o conselho de administração da empresa desde a prisão dos sócios. Monforte e Wright são ligados à empresa desde seu projeto de criação, há mais de 15 anos. Casseb, por sua vez, chegou em março deste ano, já para ajudar na administração financeira da companhia.
No pedido de recuperação judicial, a companhia anexou uma demonstração resumida da situação das empresas no fim de junho. A Agrenco Bioenergia, holding brasileira do grupo, teve receita líquida de R$ 990,3 milhões e prejuízo de R$ 285,1 milhões. A companhia tinha um dívida total de R$ 2,1 bilhão, considerando compromissos de R$ 1,7 bilhão com partes relacionadas — empresas ou pessoas do mesmo grupo econômico.  As ações estão suspensas na Bovespa desde 27 de junho, quando a empresa divulgou oficialmente a aprovação do pedido de recuperação judicial por seu conselho de administração. No último dia de negociação, os papéis fecharam valendo R$ 0,44. Quando estrearam, foram vendidos aos investidores por R$ 10,40.
O deferimento do pedido pela Justiça, que encerra essa primeira etapa dos trabalhos, depende da finalização da entrega de documentos pela companhia à Justiça, o que deve ocorrer ainda nessa semana, segundo Felsberg. A partir de então, será aberto o prazo de 60 dias para apresentação de um plano de recuperação aos credores.