Volume diminuto do pregão já preocupa

O mercado de ações brasileiro começou a semana de forma bastante tímida, com volume financeiro de R$ 1,998 bilhão, o menor do ano. Até então, a pior marca tinha sido no dia 25 do mês passado, de R$ 2,582 bilhões. Indo ainda mais para trás, é o volume mais baixo desde 28 de maio do ano passado, que foi de R$ 1,593 bilhão. O giro magérrimo de ontem tem uma boa justificativa: o feriado do Dia do Trabalho nos Estados Unidos, que coloca grandes investidores estrangeiros fora de combate. O volume da Bovespa, no entanto, vem caindo dia após dia e já preocupa. Entre outros motivos, porque um giro baixo significa um mercado mais frágil e muito mais suscetível a puxadas bruscas tanto para cima quanto para baixo, sem grandes explicações para isso.
O auge do giro foi em maio – R$ 7,035 bilhões de média diária -, exatamente quando o Índice Bovespa atingia seus últimos recordes históricos, com os investidores bastante animados após o Brasil ser promovido à grau de investimento por duas grandes agências de classificação de risco (a Standard & Poor’s e a Fitch Ratings). A partir de então, o volume só caiu a cada mês, fechando agosto com uma média diária de apenas R$ 4,811 bilhões, uma queda de 14,7% ante o mês anterior (R$ 5,644 bilhões ao dia), além de ser a menor marca desde julho do ano passado, quando o giro estava em R$ 4,818 bilhões.
Essa redução de volume está amplamente ligada ao agravamento da crise hipotecária americana nos últimos três meses. Não é à toa que, juntamente com o giro, o Ibovespa caiu 23,30% entre junho e agosto. “Com tantas incertezas sobre o cenário internacional, os investidores resolveram ir para o porto seguro da renda fixa”, diz o gerente de renda variável da Modal Asset Management, Eduardo Roche. Ele lembra que isso também ocorreu com as outras principais bolsas do mundo, cujos volumes de negócios caíram de forma geral.

A queda do giro e do preço das ações coincide também com o fluxo negativo dos investidores estrangeiros, cujas vendas na Bovespa superaram as compras em R$ 17,285 bilhões nos últimos três meses.
No caso do Brasil, adicionalmente à crise externa, houve o início das discussões sobre o controle da exploração do petróleo nas áreas do pré-sal, que ganharam força nos últimos dois meses. O temor de que o governo acabasse tomando da Petrobras as áreas do pré-sal que já são dela afugentou os investidores das ações da companhia, prejudicando o volume da bolsa por tabela, já que são os papéis mais importantes do pregão. “Se na melhor das hipóteses a história do pré-sal não prejudicou a Bovespa, também não ajudou a segurar o fluxo de recursos”, diz Roche.
Como se não bastasse, começaram os temores sobre o fim do longo ciclo de valorização das commodities. A possibilidade disso de fato ocorrer levou o dinheiro para ainda mais longe do mercado brasileiro, maciçamente composto por ações de grandes companhias produtoras de matérias-primas. Ontem foi um bom exemplo. Com a queda de commodities como o petróleo, o Ibovespa fechou em baixa de 0,93%, aos 55.162 pontos.
No caso das commodities agrícolas, como soja e milho, o que se espera é que se mantenham em níveis elevados, por um nítido desequilíbrio entre oferta e demanda, sendo este último elemento ainda muito maior, diz o analista de uma corretora. Nas metálicas, como aço, níquel, cobre, minério de ferro, além do petróleo, é possível acreditar que a grande correção dos preços já ocorreu. “Ninguém sabe ao certo em qual nível estará o petróleo no médio prazo, mas é difícil imaginar que seja abaixo dos US$ 100”, completa o analista.

A bolsa afeta a bolsa
A redução do volume da bolsa não afeta apenas o comportamento do pregão. Ela impacta negativamente o resultado da BM&FBovespa, hoje uma companhia de capital aberto, já que boa parte dos seus ganhos vem dos chamados emolumentos (taxas cobradas sobre os negócios). “Se essa queda do giro continuar de forma consistente, os fundamentos da BM&FBovespa devem piorar e as ações da companhia terão de refletir esse novo cenário”, diz Roche, da Modal Asset. Ele lembra que os múltiplos da BM&FBovespa, como Preço/Lucro (P/L, que dá uma idéia do tempo de retorno), estão acima dos de outras bolsas no mundo, um sinal de que as ações da empresas brasileira já podem estar excessivamente valorizadas. Ontem, as ordinárias (ON, com voto) da BM&FBovespa subiram 3,29% e negociaram R$ 108,1 milhões, atrás apenas das preferenciais (PN, sem voto) série A da Vale e das PNs da Petrobras. Muitos investidores compraram os papéis da BM&FBovespa para adaptar suas carteiras à nova formação do Ibovespa. As ações da bolsa entraram no índice com peso de 3,94%.