Eis uma história do novo brasil: a incrível saga de marcos molina dos santos, controlador do grupo marfrig. filho de açougueiro, abriu sua primeira empresa aos 16 anos e hoje, aos 38, possui 60 plantas em nove países

por Alexa Salomão

O EMPREENDEDOR Marcos Molina dos Santos criou no interior de São Paulo uma distribuidora de carnes que se transformou em um grupo, o Marfrig, avaliado em R$ 4 bilhões

“Segunda-feira eu tive uma grande e agradável surpresa. Fiquei sabendo que vocês compraram a empresa em que trabalho, a Moy Park, de Wisbech. Para mim é muito gratificante saber que uma empresa brasileira está se sobressaindo no cenário internacional. E agora, na fábrica, todos os meus colegas de trabalho, inclusive o manager, estão brincando comigo, me chamando de ‘boss’, claro, porque sou brasileiro. É muito bom saber que agora trabalho em uma empresa brasileira aqui na Inglaterra. É como se um pedacinho do Brasil estivesse aqui comigo. Isso me deixa muito orgulhoso.”

O empresário paulista Marcos Molina dos Santos sorri quando se refere ao e-mail que recebeu de Osório Augusto Baggio, no final de junho, dias depois de conduzir a maior aquisição feita pelo seu grupo, o Marfrig, do setor de carnes. Foram 15 plantas do grupo americano OSI, no Brasil e na Europa. Em meteóricos dois anos, o Marfrig abocanhou 25 empresas, sendo mais da metade no exterior. A compra do OSI foi a mais ousada. Com ela, de uma única tacada, praticamente triplicará seu faturamento para quase R$ 10 bilhões neste ano ano e passará a operar 60 plantas em nove países. O grupo, que já tinha unidades na Argentina, no Uruguai, no Chile e nos Estados Unidos, estende seus domínios para Inglaterra, Irlanda do Norte, França e Holanda, passando a operar diretamente em oito países, além do Brasil. Isso significa que quando a operação de compra for concluída, Molina será o controlador da mais internacionalizada empresa do agronegócio brasileiro, além da quarta maior processadora de carne bovina e uma das dez maiores de frango. Seu valor de mercado é de R$ 4 bilhões.

Entre os novos negócios está a fábrica inglesa Moy Park, do OSI, onde Baggio, emigrante brasileiro que se fixou na Inglaterra em 2005, está empregado. Cartas como a que ele enviou são vitamina para a sede de crescimento de Molina, um homenzarrão de poucas palavras que só interrompe o silêncio para soltar uma de suas marcas: uma gargalhada impagável (pergunte a ele, por exemplo, quantas horas de lazer lhe sobram na semana). Molina, de 38 anos, é o rosto mais jovem que desponta na onda de globalização das empresas brasileiras do setor de agronegócio. Até o momento, os holofotes permaneciam sobre a JBS, o antigo Friboi, que comprou a marca Swift e disputa a posição de maior empresa de bovinos do mundo com a americana Tyson Foods. A JBS, da família Batista, ainda é a maior em faturamento, mas o Marfrig de Molina alcança um número maior de países.

Neto e filho de açougueiros, o destino de Molina parecia traçado já na infância. Aos 12 anos, começou a trabalhar atrás do balcão do açougue do pai, em Mogi-Guaçu, no interior de São Paulo. Era um faz-tudo: ora atendia os fregueses e cortava a carne, ora assumia o caixa. Mas contrariando a tradição interiorana, Molina tinha pressa. Com apenas 16 anos, pediu ao pai que o emancipasse. Sua idéia era montar um negócio de distribuição de miúdos. Antes de começar já tinha os clientes – os maiores compradores do açougue do pai, com quem acertou as entregas antes de se aventurar sozinho. A pequena empresa começou a atuar na cidade e depois na região. Chegou a Campinas e depois alcançou a capital paulista. Aos 28 anos, Molina já se tornara um fornecedor de cortes nobres e importados para os melhores restaurantes e churrascarias da metrópole. O jovem Molina sempre se preocupou em ter o que é mais difícil nesse negócio: uma boa base de clientes. Em seguida, para atendê-los melhor, tentou vôos mais ousados. Foi além do negócio de distribuição e começou a comprar frigoríficos. O primeiro, em 2000, foi o Bataguassu, em Mato Grosso do Sul. Nunca mais parou.

O Marfrig ilustra com precisão um movimento de ascensão internacional que não é isolado na história recente do mundo corporativo. Faz parte de um novo fenômeno de proporções globais. Um número cada vez maior de empresas fundadas em países emergentes, como China, Índia e Coréia, está avançando para competir em países desenvolvidos. No Brasil esse movimento caminha de forma mais lenta (veja a reportagem Por Que Estamos atrás Deles), mas o exemplo do Marfrig aponta para uma nova geração de empresas brasileiras que começa a desbravar o mercado externo para crescer.

DESFILE DE MARCAS
O grupo Marfrig tem cerca de 30 marcas. Eis as mais importantes:
fonte_Marfrig

Marcos Molina é um empreendedor intuitivo. Não fez faculdade, não lê livros de negócios e não recorre a consultorias de gestão. É viciado em trabalho. Os clientes têm o número de seu celular e podem ligar até nas madrugadas. “Marcos consegue trabalhar 21 horas por dia”, diz Márcia dos Santos, sócia integrante do conselho de administração e mulher de Molina. O casal se conheceu quando ela tinha 16 e ele 18 anos. Casaram-se cinco anos depois. Márcia sempre foi o braço direito do marido. Quando os primeiros frigoríficos foram comprados, na região Centro-Oeste do país, no início da década, era ela quem o acompanhava nas visitas às novas unidades. Todas as sextas-feiras, o casal embarcava com os dois filhos no jatinho da empresa e seguia para os frigoríficos. Analisavam a contabilidade, as linhas de produção e os relatórios de entregas.

“Muitas vezes trabalhamos aos sábados até a madrugada e voltamos para São Paulo ao meio-dia do domingo”, diz Márcia.Ainda hoje, já com a gestão da empresa profissionalizada, Molina aproveita os feriados e os fins de semana para viagens de negócio em seu jato para colocar o trabalho em dia.

Simplicidade
Também é despojado. Trabalha em mangas de camisa e só usa terno quando o protocolo exige. No dia-a-dia dos negócios, é despachado. Fala e ri com sonoridade. Mas é de natureza tímida. Não gosta de comentar suas conquistas. “Não fiz nada disso sozinho. Tudo foi desenvolvido junto com o cliente, o fornecedor e toda a equipe do Marfrig. E com a minha mulher, que sempre esteve ao meu lado”, afirma. No mercado, Molina é descrito como um homem que sabe ouvir para, em seguida, agir. “Em um jantar de negócios, Marcos passa a maior parte do tempo calado. Só fala ao final, por uns cinco minutos, diz o que vai fazer – e faz. Sempre do jeito mais correto e transparente”, diz Arri Coser, sócio da rede de churrascarias Fogo de Chão e responsável pela internacionalização do rodízio gaúcho. Coser tem seis churrascarias no Brasil e 11 nos Estados Unidos. Quando começou a trabalhar com Molina, em 1995, comprava do Marfrig apenas 10% da carne do Fogo de Chão. Hoje essa parcela oscila entre 60% e 70% nas unidades brasileiras.

Uma das características que impressionam pessoas próximas é a simplicidade de Molina. Um desses interlocutores é Antonio Maciel Neto, presidente da Suzano Papel e Celulose e ex-presidente da Ford do Brasil. Maciel é conselheiro independente do Marfrig, ao lado de Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central, e de Marcelo Maia de Azevedo Corrêa, presidente do grupo Neoenergia. Maciel relutou em aceitar o convite da Fesa, a agência de recrutamento de executivos escolhida por Molina para ajudá-lo a profissionalizar a gestão do grupo Marfrig. “Eu não tinha tempo para mais nada, mas insistiram porque queriam me apresentar ao Marcos”, diz Maciel. “Acabei aceitando e fiquei impressionado com a inteligência e o carisma dele.” Outro traço que chama a atenção em Molina é sua visão estratégica certeira.

“As coisas nascem muito rapidamente na cabeça dele”, diz Márcia. “Ele pensa sempre antes, na frente.” Quando o Marfrig ainda era focado em carnes bovinas, Molina comprou o Patagonia, frigorífico especializado em cordeiros na Terra do Fogo, extremo sul do Chile. Orgulhoso, levou Márcia para conhecer o local. O casal chegou à região num dia gelado, abaixo de zero. Márcia espantou-se com a paisagem desértica. “O que tem nesse fim de mundo?”, perguntou. “Duzentos e cinquenta mil cordeiros por ano”, disse Molina. E cordeiros especiais, considerados orgânicos, porque pastam. Têm mercado garantido, já que a demanda por esse tipo de carne só cresce. Além disso, o Patagonia tem uma planta de 9 mil metros quadrados, clientes cativos na Europa, no Japão e na Rússia e toda a estrutura para o abate Kosher, o ritual exigido por judeus ortodoxos.

Comprou o primeiro frigorífico lá fora em 2006, no Uruguai

No mês seguinte, Molina surpreendeu de novo seu pessoal ao fechar a compra da Quickfood. O negócio não se encaixava na lógica das aquisições de brasileiros no exterior. Normalmente, o que interessa são frigoríficos com bons produtos para exportação. A Quickfood é uma empresa de alimentos que atende ao mercado interno e seu melhor ativo é a linha Paty, sinônimo de hambúrguer para os argentinos. Molina já conhecia o peculiar nacionalismo local, que em vários períodos da história interferiu nas regras de exportação e de importação, principalmente de produtos brasileiros. Em março deste ano, por exemplo, quando ruralistas fizeram barricadas contra a exportação de alimentos e o governo proibiu os embarques de carne, a Quickfood tornou-se um dos melhores negócios do Marfrig na Argentina.

Histórias como essa e a trajetória do Marfrig mostram que Molina aprendeu na prática a fazer o dever de casa no mundo dos negócios. Quando não passava de um pequeno comerciante de carnes, foi obrigado a negociar em um setor precário, com problemas de logística e de abastecimento. Em 1986, quando abriu a empresa, o Brasil vivia sob a pressão do Plano Cruzado e a escalada da inflação. O governo chegou a confiscar boi no pasto para manter o fornecimento. Para garantir cada naco de carne que vendia aos clientes, era preciso cultivar contatos e isso Molina sabia fazer. No início, cativou a clientela em Mogi-Guaçu. Depois foi para as cidades vizinhas, como Campinas e Águas de Lindóia. Em 1994, começou a fornecer para o Porcão, do Rio de Janeiro, uma das mais badaladas churrascarias do país. Foi quando percebeu que os melhores restaurantes tinham uma enorme carência de boas carnes. A partir de então, passou a sondar a capital paulista, onde o circuito gastronômico era bem maior. Em 1998, com vários clientes garantidos, transferiu a sede da empresa para Santo André, na região metropolitana de São Paulo.

Molina foi o primeiro a se preocupar em aproximar todos os elos de uma cadeia complicada. “Pecuarista, fornecedor e cliente viviam em guerra”, afirma. “Na safra, sobrava carne e se comprava barato. Na entressafra, o preço subia e era uma luta garantir o produto. Tínhamos de começar a trabalhar juntos”, diz Molina, que levou donos de restaurantes paulistanos para conhecer as melhores fazendas de gado da Argentina e do Uruguai. Também foi cicerone de produtores dos países vizinhos em jantares na capital paulista. Sentava-se à mesa com os dois lados, para intermediar contratos de fornecimento de longo prazo, sempre deixando claro qual seria a margem de lucro do Marfrig em cada negociação. “Os concorrentes diziam para não fazer isso”, diz Molina. “Que depois os clientes iriam negociar sozinhos, mas não foi o que aconteceu.” Com a estratégia, Molina garantia mercado para os produtores, carne para os clientes e espaço ao Marfrig. “A grande marca de Marcos foi propor parcerias quando ninguém se preocupava com isso. Ele trabalha em conjunto, é arrojado. Pensa e age muito rapidamente”, diz o gaúcho Ari Nedeff, sócio majoritário de redes de rodízio como Novilho de Prata, Montana Grill, Pampeana, Galeteria Gaúcha e Boi Brasil. Nedeff compra do Mafrig toda a carne bovina e de porco que serve nas 14 churrascarias de sua rede.

Molina também foi o primeiro a oferecer produtos sob medida. Preocupou-se em entender que tipo de carne cada dono de restaurante queria no cardápio e negociou com os fornecedores para que produzissem cortes sob medida, que ele embalava a vácuo para garantir a qualidade. “Aprendi muito cedo que a carne não deve ser apenas bonita”, diz Molina. “Deve ter qualidade, ser macia.” Os cortes de Molina permitiram aos donos de restaurantes conceituados criar pratos antes impensáveis no Brasil por falta de matéria-prima. “A primeira vez que o vi, era praticamente uma criança. Tinha pouco mais de 20 anos e carregava uma caixa com peças de cordeiro em um dos braços e de bovinos no outro”, diz o americano Peter Rodenbeck, sócio no Brasil dos restaurantes Outback e da rede de cafeterias Starbucks, e também o responsável pela chegada do McDonald’s ao país, na década de 80. “Não nos entendemos muito bem no primeiro encontro. Ele era um jovem com forte sotaque do interior e eu um gringo que mal falava português. Mas ele deixou os cordeiros.” As peças tinham alta qualidade e foram usadas no teste de novas receitas. Dois meses depois, o cordeiro de Molina foi incluído no cardápio da rede Outback. “É um cordeiro famoso até hoje”, diz Rodenbeck.

Contribua para a continuidade da criação desde site clicando em nosso patrocinador abaixo.

Confira aqui e confira Regulação do Mercado Financeiro e de Capitais clicando nas lojas do site de pesquisa de preços.

About these ads