São Paulo, 29 de Julho de 2008 – O silêncio dos investidores chama a atenção quando se olha para as perdas que estão amargando com a Agrenco. Em casos menos graves, investidores minoritários e seus representantes fizeram muito barulho, alardeando sua indignação e pedidos de ressarcimento por perdas e danos. Não que no caso da Agrenco o número de investidores ou as perdas não sejam relevantes. Os papéis da empresa – comprados no IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ação) pelo valor de R$ 10,40 por 799 pessoas físicas, 78 investidores qualificados, 18 fundos e 6 clubes de investimento – viraram pó. Na Bovespa, estavam cotados a R$1,27 ontem, uma desvalorização de 88%, em relação ao preço pago na oferta realizada em 25 de outubro de 2007. No mesmo período o Ibovespa, principal índice de preços da bolsa estava com queda de 9,9%.
Talvez o escândalo envolvendo o grupo Opportunity, deflagrado no mesmo momento, tenha ofuscado as iniciativas. Talvez o silêncio esteja ligado à negligencia dos próprios investidores, que deslumbrados com os elevados ganhos proporcionados pela bolsa de valores, não avaliaram corretamente a operação. Só em 2007, a bolsa subiu 43,6%, superando de longe aplicações como o CDI, com 11,82%.
Não houve a devida atenção ao fato da captação estar sendo feita via BDRs (recibos de ações de empresas estrangeiras negociadas na Bovespa) de uma subsidiária aberta nas Bermudas, conhecido paraíso fiscal. Isso sem falar dos enormes riscos da operação descritos no prospecto de IPO. Por exemplo, que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tinha poderes limitados como regulador da empresa. Outra questão relevante: investidores não atentaram para o possível conflito de interesses envolvendo o Credit Suisse, coordenador-líder e um dos responsáveis pela operação. O braço do banco nas Bahamas tinha um relacionamento comercial com a empresa, envolvendo entre outros um empréstimo de US$ 30 milhões. Daí seu potencial interesse no sucesso do IPO da empresa, que captou R$ 666 milhões.
A CVM abriu investigação sobre o caso, que colocou na berlinda todo o mercado de BDRs. Segundo Felipe Claret, superintendente de registros de valores mobiliários da CVM, o caso está sendo avaliado e deve ir a apreciação do colegiado do órgão. Isso é tudo que ele pode dizer por enquanto. “Qualquer outra informação poderá comprometer a atuação da CVM no caso”, afirmou. Pela regulamentação relativa às ofertas de BDRs (Instrução 331 e Instrução 332 da CVM), a empresa é obrigada a ter “um representante legal no País, com plenos poderes para tratar de quaisquer questões, podendo ser demandado e receber citação inicial e intimações pela companhia”. No caso da Agrenco, esse responsável é o advogado José Roberto Vedovato. As punições que podem ser aplicadas pela CVM vão de advertência e multa até a inabilitação de operar no mercado.
Entre os demais envolvidos no IPO da Agrenco estão a empresa de auditoria KPMG; um dos maiores escritórios de advocacia do País, o Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados; além de um nome importantes da governança corporativa: José Guimarães Monforte, que foi por vários anos o presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), uma referência da governança no mercado brasileiro. Do lado da empresa, o maior sócio, presidente- executivo e presidente do Conselho de Administração, Antônio Iafelice, teve sua prisão decretada pela Policia Federal, junto com outros diretores, na operação Influenza.
Julho 29, 2008
O silêncio dos investidores chama atenção no caso Agrenco
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