O recente escândalo da Agrenco traz à tona a vulnerabilidade de quem exerce o papel de conselheiro
Por Larissa Santana
exame
No final do ano passado, as perspectivas da Agrenco, empresa que atua no setor do agronegócio, pareciam ótimas. A empresa tinha acabado de abrir seu capital, levantando 666 milhões de reais, estava prestes a fechar o ano com um faturamento de 3,5 bilhões de reais (crescimento de 40% em relação a 2006) e tinha planos para começar a investir em biocombustíveis e energia. A foto ao lado foi tirada justamente nessa época de euforia. Nela aparecem — da esquerda para a direita — o diretor de relações institucionais Francisco Ramos, o conselheiro José Guimarães Monforte, o fundador e presidente Antonio Iafelice e o diretor financeiro e de relações com investidores Theodorus Zwijnenberg. A fase otimista vivida pela Agrenco, porém, ficou para trás. No dia 20 de junho, Ramos e Iafelice foram presos pela Polícia Federal, juntamente com Antonio Pires, diretor de operações. Controladores da Agrenco, os três respondem à acusação de crimes financeiros, como lavagem de dinheiro e estelionato (todos foram soltos no dia 16 de julho). “Fiquei muito surpreso com as acusações”, diz o conselheiro Monforte, que presidiu o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) até março de 2008 e participava de um evento na Coréia do Sul quando recebeu a notícia da prisão.
Do dia para a noite, a rotina de Monforte mudou drasticamente. Com a companhia acéfala, o comando da Agrenco caiu no colo do conselho de administração, composto de outros dois membros independentes — Cássio Casseb, ex-presidente do Banco do Brasil e do Pão de Açúcar, e James Wright, professor da Universidade de São Paulo e da Fundação Instituto de Administração (FIA). Liderado por Monforte, o grupo recebeu a missão de encontrar um novo comprador para a empresa (até o fechamento desta edição, a venda não havia sido concluída). “O conselho entrou numa espécie de reunião permanente para resolver a situação”, diz Monforte. Na prática, isso significa que os três tiveram de se envolver em negociações que avançam na madrugada e não têm trégua nem nos fins de semana — algo que eles jamais previram que faria parte de suas atribuições.
A situação vivida por Monforte, Casseb e Wright demonstra a extensão dos riscos de quem exerce o papel de conselheiro. A operação policial na Agrenco envolveu apenas os controladores — o que os deixou sem pendências com a Justiça. Mas, como membros da instância máxima da gestão da companhia, eles não escaparam do escrutínio da opinião pública. A principal dúvida era se eles nunca tinham percebido irregularidades na Agrenco — apesar de, teoricamente, terem acesso a todas as suas informações. À reportagem de EXAME, os três afirmaram desconhecer qualquer indício de anormalidade. “A Agrenco é uma empresa de capital aberto, auditada pela KPMG, fez a abertura de capital com o Credit Suisse e tem um conselho forte”, diz Casseb. “Tomei todos os cuidados antes de aceitar o convite e ainda assim estamos nessa situação.” Logo após o anúncio das prisões, Monforte pediu aos integrantes de outros cinco conselhos de administração dos quais participa, entre eles o da construtora JHSF e o da operadora de telefonia móvel Vivo, a chance de explicar o que havia ocorrido. “Todos dispensaram as explicações por confiar na minha reputação”, diz Monforte. Wright teve de encarar a curiosidade dos alunos do MBA de executivos internacionais que coordena na FIA. “Eles queriam saber o que tinha acontecido”, diz. “Mas em nenhum momento duvidaram de mim.”
Julho 29, 2008 at 2:53 pm
Olá,
Gostaria de informações sobre o posicionamento da Auditoria KPMG sobre o ocorrido.
É incompreensível a falta de explicação e justificativa da Auditoria Externa, pois, pelo que li eles auditaram 4 anos a Agrenco e pelos meus conhecimentos, sei que há uma série de formulários de riscos antes de aceitar os serviços e ainda vários formulários que precisam ser preenchidos quando do fechamento da auditoria e isto passa pela revisão do senior, do gerente e do sócio da Auditoria.
Na realidade quando auditamos uma empresa, é efetuado testes de controles internos sobre as Áreas Departamentais, a fim de avaliar os riscos e determinar os testes substantivos que serão aplicados na Auditoria de Balanço. Além disso, tem a verificação da movimentação dos Estoques, cálculo dos custos, testes sobre os saldos de contas a receber e pagar e principalmente as circularizações, ou seja, um dos maiores pesos que é a fonte independente de confirmação de transações junto aos clientes e fornecedores.
Enfim, realmente pegar fraudes não é o objetivo principal e direto nos Trabalhos de Auditoria de Balanço, contudo, bons auditores,(no caso, podemos afirmar que 100% dos profissionais que trabalham há mais de 3 anos numa big four são excelentes auditores, tanto, pelas exigências requeridas ao longo dos trabalhos, como pelos intensos treinamentos internos), conseguem no mínimo perceber que há algo de errado no reino de Avilã.
Contundantemente, deveríamos ter melhores explicações da empresa de Auditoria.
Abraços,