Opportunity altera rumo do Ibovespa

Curiosamente, ontem, pelo segundo dia consecutivo, a Bovespa conseguiu ter forças suficientes para descolar do péssimo desempenho do mercado americano que, mesmo combalido, ainda é o que dita as regras das bolsas do mundo inteiro. São raros os momentos em que a bolsa brasileira consegue se desprender de Nova York, especialmente em fases tão ruins, como a atual, agravada pelas dúvidas sobre a crise imobiliária americana e as consequências sobre o setor financeiro. A má notícia dessa história é que a hercúlea resistência da Bovespa estaria ocorrendo graças às operações no mercado futuro da administradora de recursos do banco Opportunity (a Opportunity Asset Management). A gestora, que vem enfrentando resgates em seus fundos de investimento, optou por mudar sua estratégia no Ibovespa futuro.
Depois de cair até 3,18% na parte da manhã, ficando abaixo dos 59 mil pontos, o Índice Bovespa chegou a subir até 1,58% perto do fim dos negócios, encerrando em leve alta de 0,48%, aos 61.015 pontos. Essa valorização pode parecer bobagem, mas é relevante, se comparada à queda de 0,84% do Índice Dow Jones e de 1,09% do Standard & Poor’s (S&P 500), ambos da Bolsa de Nova York. Na segunda-feira, o Ibovespa subiu 0,95%, enquanto os índices americanos caíram.

Em circunstâncias normais de temperatura e pressão, quedas dessa magnitude nos EUA provocariam tombos de pelo menos 2%, 3% no índice brasileiro. Há várias justificativas para esse descolamento benigno do mercado local. Entre elas, a de que os investidores estrangeiros teriam se cansado de vender ações brasileiras, que estaria havendo uma recuperação dos papéis de menor liquidez (de segunda linha ou “small caps”) e que o investidor teria percebido que os fundamentos econômicos locais são melhores do que os do resto do mundo. No entanto, há outro motivo mais específico. Segundo várias fontes ouvidas pelo Valor, operações do Banco Opportunity é que estariam provocando essa alta. A Opportunity Asset Management estaria comprando grandes lotes de contratos de Ibovespa futuro, na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F).
No mercado futuro, quando se vende contratos do Ibovespa, o investidor está acreditando na queda do indicador e, caso queira anular a sua aposta, faz a operação oposta, comprando contratos no mesmo valor. “A asset estava ‘vendida’ (apostando na baixa do mercado) em Ibovespa futuro e agora está desfazendo essa operação comprando e, com isso, puxa o preço do índice na BM&F”, explica um gestor. Isso estaria provocando uma diferença de preços entre o Ibovespa futuro e as ações que fazem parte do índice no mercado à vista. E, exatamente para aproveitar essa distorção, os investidores estariam vendendo contratos de Ibovespa futuro e comprando as ações do índice no pregão da Bovespa, ganhando com a diferença.

“É isso que está fazendo o mercado se sustentar nos últimos dois dias, mesmo com a situação cada vez mais delicada nos EUA”, diz o diretor de uma corretora. A assessoria do Opportunity não comentou as operações na BM&F, informando apenas que elas não tinham a ver com resgates em fundos (. Ontem, segundo a assessoria da gestora, não houve resgates.
Não há nada de imoral, ilegal ou que engorde nessas supostas operações do Opportunity. São negócios absolutamente normais e corriqueiros. A questão é que o banco estaria fazendo um volume alto dessas operações e provocando uma sensação artificial e equivocada de que o mercado brasileiro está passando incólume pela deterioração do cenário internacional. “O preocupante será a hora que o Opportunity parar de fazer essas operações e o mercado não tiver outra coisa para se segurar, e é bom os investidores estarem atentos e preparados”, afirma o diretor da corretora.
Também pelo segundo dia consecutivo, foram as ações de “small caps” que seguraram as pontas da bolsa, enquanto os papéis das grandes companhias, como Petrobras, Vale, Bradesco, Unibanco, Itaú, Gerdau e CSN, participaram como âncoras, puxando o pregão para baixo.