Nesse último movimento de desvalorização do mercado, a bolsa inteira sofreu. Mas as ações de companhias menores e também com liquidez mais estreita (chamadas de segunda linha ou “small caps”) caíram de forma ainda mais significativa, algumas delas indo parar praticamente na bacia das almas. Agora está ocorrendo o movimento inverso. Percebendo que muitos desses percentuais de baixa passaram do nível que seria aceitável, os investidores voltaram a olhar para esses papéis com mais atenção e a colocá-los em suas carteiras. Foi exatamente esse movimento que mais chamou atenção no pregão de ontem. Com exceção das ações da AmBev, que subiram por causa da compra da Anheuser-Busch pela InBev, todas as maiores altas do Índice Bovespa são papéis com uma liquidez um pouco menor e que caíram bem nas últimas semanas. Para se ter idéia, entre os dez papéis do índice que mais subiram não havia sequer uma das figurinhas carimbadas como Petrobras, Vale, (CSN), Usiminas e Gerdau.
As ações ordinárias (ON, com voto) da Rossi Residencial, por exemplo, se valorizaram 4,49%, enquanto as da Lojas Renner subiram 4,21%. Já as ONs da Natura tiveram alta de 4,10%, as preferenciais (PN, sem voto) da Lojas Americanas, 3,26% e as ONs da Light outros 3,83%. O Ibovespa fechou em alta de 0,95%, aos 60.720 pontos, contrariando a tendência de queda dos principais índices do mercado americano. Não é coincidência que, até sexta-feira, alguns desses papéis figuravam entre as maiores quedas do Ibovespa no ano. Até a semana passada, Rossi Residencial acumulava baixa de 51,60%, enquanto o Ibovespa caía apenas 5,85%. Já as PNs da Lojas Americanas amargavam uma queda de 32,94%, as ONs da Lojas Renner, de 19,18% e as ONs da Light, 18,38%.
“Os investidores estrangeiros reduziram as vendas de papéis na Bovespa e, com isso, os brasileiros, que já estavam interessados em comprar ações muito desvalorizadas, se sentiram mais seguros para começar a garimpagem”, diz o diretor de uma corretora. Ele lembra que esse movimento de compra de “small caps” já vem ocorrendo nos últimos três, quatro pregões, mas ontem ganhou um destaque maior.
A redução do voraz apetite de venda por parte dos estrangeiros foi decisiva para que o aplicador local voltasse a dar atenção para esses papéis. Como são ações de menor liquidez, o investidor precisa ter alguma “garantia” que a maior parte das vendas já ocorreu. “As ’small caps’ são capazes de derreter de um dia para o outro se um grande investidor estrangeiro se desfaz dessas ações”, explica o diretor.
Quanto maiores as quedas, maior o potencial de valorização das ações no caso de uma recuperação do mercado e dessas companhias terem bons fundamentos, claro. As maiores procuras estão nas “small caps” dos setores de varejo, consumo e energia elétrica, cada uma por um fundamento diferente além da desvalorização. Nos papéis de energia, principalmente os de geração, a demanda está aquecida e a expectativa é que isso continue. No caso das ações de varejo e consumo, os analistas acreditam que o processo de alta da taxa de juros já esteja fazendo efeito sobre os índices de inflação.
Motivos não faltaram para a queda
A maior parte das ’small caps’ é voltada ao mercado doméstico e, por esse motivo, sofreu muito com a alta da inflação e dos juros”, diz o analista especializado em empresas de segunda linha da Corretora Unibanco, André Rocha. Ele lembra, no entanto, que essa queda foi um tanto exagerada. O crescimento da economia irá desacelerar, mas não da forma abrupta que ocorria no passado, explica o analista. “Os investidores também não se deram conta de que os analistas já estimavam um arrefecimento da economia em suas projeções, o que significa que não haverá grandes mudanças no preço alvo das ações”, lembra Rocha. Ele acredita que este pode ser um bom momento de investir em algumas dessas “small caps”, a preços melhores e com objetivo de longo prazo. Entre elas, ele recomenda a compra de Confab e Marcopolo.
No caso das novas companhias que estrearam no pregão nos últimos anos, além de terem pouca liquidez, soma-se a isso o fato de os investidores estrangeiros terem ficado com mais de 70% das ações e recentemente terem vendido aos montes. Mesmo sendo exceções, os recentes problemas com algumas dessas novatas, como Agrenco, Laep e Dufry, também arranharam a imagem das empresas de segunda linha, especialmente aquelas que surgiram nesse reaquecimento do mercado de capitais a partir de 2004. “Muitos pequenos investidores se assustaram, achando que todas as debutantes têm problemas de governança e de gestão”, afirma um analista. Ele acrescenta que várias dessas novas empresas possuem uma comunicação ruim com o mercado, o que também contribuiu para os investidores baterem em retirada.