O papel da especulação na disparada dos preços de commodities agrícolas

SÃO PAULO – O ano vem sendo – entre outros fatores – marcado pela disparada nos preços das commodities. O barril de petróleo mais que dobrou de cotação nos últimos doze meses, em um movimento compartilhado pelos metais. Nesse contexto, as commodities agrícolas não ficam para trás, e com o agravante de deflagrarem a já chamada “crise dos alimentos” no mundo.

Em tal cenário tão atribulado, o crescimento de um grupo nos mercados de negociação de commodities, que até então vinha passando despercebido, começou a ganhar os holofotes dos analistas e a ser alvo de possíveis mudanças já estudadas pelos agentes regulatórios: o dos especuladores, apontados por muitos como os principais responsáveis pela trajetória ascendente dos preços dos produtos.

Mas o problema não é tão simples assim. Catherine Mollière, analista do Crédit Agricole, ressalta que nem sempre investidores financeiros são movidos por interesses especulativos. A recíproca também não é verdadeira: nem sempre aqueles que entram no mercado de commodities motivados por objetivos comerciais se atêm somente às operações de hedge.

Quem é especulador e quem não é
Mollière atenta, em primeiro lugar, ao crescimento dos mercados futuros de commodities sobre os mercados de spot, que regulam as transações imediatas dos bens. Como números que comprovam sua leitura, Mollière cita o mercado futuro de milho, cujas negociações se concentram em Chicago e cujas posições de longo prazo representaram em maio deste ano 25% da safra mundial do produto.

Segundo a analista, os participantes dos mercados futuros de commodities podem ser divididos, a grosso modo, em dois grupos: aqueles que necessitam praticar o hedge para objetivos comerciais e financeiros; e os especuladores, que, por sua vez, se decompõem entre aqueles que possuem posições de curto prazo, visando o lucro rápido, e os investidores posicionados em longo prazo.

Dada a sobreposição de objetivos, não é fácil determinar quem são os especuladores e quem não são. Tarefa ainda mais árdua é saber qual o real impacto da especulação sobre a alta nos preços das commodities agrícolas. Entretanto, Mollière acredita que alguma coisa pode ser deduzida a partir dos números e estatísticas de cada mercado.

O de trigo, por exemplo, não apresentou nos últimos tempos mudanças significativas no número e divisão de seus participantes. Por isso, a analista descarta que a especulação tenha sido o fator preponderante na valorização no preço do produto desde meados de 2007. Por sua vez, cenário exatamente oposto se constata nos mercados de milho e soja, que assistiram a uma massiva entrada de especuladores nos últimos anos.

Volatilidade
“Os agentes financeiros certamente não criaram a dificuldade de oferta enfrentada pelos mercados de commodities agrícolas nos últimos anos: eles talvez tenham ajudado a tornar a situação apenas mais visível. Todavia, eles são um importante fator de volatilidade, uma vez que agem de acordo com elementos que não necessariamente pertencem à dinâmica do mercado de commodities”, afirma Mollière.

De acordo com a analista, muitos investidores entram no mercado de commodities a fim de diversificar seu portfólio, ainda mais com a disparada nos preços dos produtos. Quando as condições na renda variável, por sua vez, se deterioram rapidamente, muitos destes investidores podem se ver obrigados a liquidar suas posições nas commodities, independente das perspectivas que possam desfrutar, o que agrega ao mercado uma forte instabilidade.

Suspensão e barreiras
Nesse sentido, ainda que o papel da especulação na disparada dos preços dos alimentos seja desconhecido, diversos agentes regulatórios ao redor do mundo têm ensejado propostas de mudanças no ambiente dos mercados de commodities, como o Congresso norte-americano. Em outros países, o desejo não ficou apenas no papel.

Na Índia, o governo deliberou, em decisão tomada em maio, suspender todas as negociações dos mercados futuros de óleo de soja até setembro deste ano, como forma de evitar a especulação e a volatilidade e amenizar a disparada nas cotações. No mesmo sentido, barreiras também foram impostas aos mercados futuros de arroz e trigo do país.

“Tais medidas requerem maiores estudos e sua complexidade é substancial”, afirma Mollière, mas que parece se manifestar favoravelmente: “volatilidade nos mercados financeiros afeta apenas os investimentos financeiros, no entanto, volatilidade nos mercados de commodities agrícolas afeta diretamente a qualidade de vida de diversas populações”.