M. Safra reduz risco e fica fora da bolsa

Por Angelo Pavini, de São Paulo
14/07/2008

Marisa Cauduro/Valor

Ezra “Azuri” Safra: fundo multiestratégia recebe aplicações a partir de R$ 300 mil e tem carência de 180 dias

O mar não está para peixe na economia mundial e, por isso, a gestora M. Safra prefere ficar totalmente fora da bolsa de valores. Comandada pelo herdeiro de uma das mais tradicionais famílias de banqueiros do mundo, Ezra Moise Safra, a asset, que recentemente abriu seu primeiro fundo para investidores em geral, está, no curtíssimo prazo, evitando os riscos da renda fixa prefixada.

Ezra, ou Azuri, apelido herdado do avô materno juntamente com o nome, é filho de Moise Safra, que até pouco tempo atrás dividia o controle do Banco Safra com o irmão Joseph. O fim da sociedade em 2006 retirou Moise do banco, hoje comandado por Joseph Safra e seu filho Alberto. E Moise passou a se concentrar na gestão de seu patrimônio.
A gestão dos recursos da família de Moise Safra já vinha sendo feita desde 1998 por Azuri, que agora quer ampliar a empresa para além dos limites familiares. Mas sem pressa. Hoje, a M. Safra já tem R$ 1,2 bilhão em recursos, o que lhe dá absoluta tranqüilidade financeira. “O que oferecemos é a oportunidade de outros investirem juntamente com a nossa família”, diz Azuri. Para isso, basta ter R$ 300 mil para investir no M. Safra Multimercado. Como esta deve ser uma parcela não superior a 15% do total de ativos do cliente, pode-se estimar que o público-alvo de Azuri é um investidor com pelo menos R$ 2 milhões para investir. A carteira tem 180 dias de carência para resgate, outra forma de selecionar apenas os preparados para o risco. A taxa de administração é de 20%, mais performance de 20% sobre o que exceder o CDI.
Experiência não falta a Azuri, que começou a trabalhar aos 15 anos no Banco Safra. Depois, foi estudar nos Estados Unidos, onde se formou pela Wharton School. Lá ele trabalhou no Republic Bank, banco de seu falecido tio Edmond Safra. Azuri fez sua carreira na área de fusões e aquisições do Republic, analisando instituições que seriam compradas pelo tio Edmond em um período de consolidação do mercado de bancos de investimento, que culminou com a venda do próprio Republic para o HSBC.
Em 1998, Azuri voltou ao Brasil e seu pai o incumbiu de cuidar do dinheiro da família. Foi assim que surgiu a M. Safra. Para ajudá-lo na empreitada, Azuri chamou Guilherme Figueiredo, com quem divide a gestão, e Edson Maioli para a parte administrativa. Ambos estão com ele até hoje.
O fundo M. Safra é um multimercado que busca antecipar os movimentos dos mercados (estratégias direcionais, no jargão dos gestores) de renda fixa, câmbio e bolsa, além de ter uma parte de arbitragem em ações (long/short). Mas, pela experiência de Azuri, a carteira deverá ser mais forte em renda fixa, característica da casa. Além disso, poderá aplicar 20% dos recursos no exterior, outra especialidade de Azuri, que mantém uma área dedicada exclusivamente à renda fixa internacional. Com essa visão global, a gestora mantém dois economistas, um para Brasil e outro para o mercado internacional. Conta ainda com três analistas seniores e três juniores e mais um gestor de renda variável.
A idéia de abrir a gestora para terceiros se deve ao crescimento da liquidez local. “Decidimos que poderíamos gerir um valor maior e abrir a possibilidade de outros co-investirem com a família”, explica Azuri. Ele não tem medo de começar justamente em um momento em que os investidores estão saindo dos multimercados, atraídos por CDBs que pagam mais de 100% do CDI. “Vemos essas perdas de patrimônio como uma venda mal-feita, o cliente não estava preparado para o risco”, diz Azuri.
Por isso, ele não pretende ter distribuidores, optando pelo atendimento direto ao cliente. “Queremos conhecer a cabeça do cliente e ter certeza que ele sabe onde está aplicando”, diz. A expectativa é terminar o primeiro ano com R$ 500 milhões. Hoje a carteira tem R$ 170 milhões.

Azuri não esconde o pessimismo com o cenário econômico global de curto prazo. Para ele, a alta da inflação é a segunda parte da crise, que começou em agosto do ano passado com as hipotecas de alto risco americanas. “O Brasil ficou seis meses incólume graças à balança comercial e à alta das commodities, mas agora a crise tem a ver com os mercados emergentes e com o país”, afirma. A avaliação da gestora é que os emergentes estavam crescendo acima do seu potencial, o que levou à alta das commodities, mas agora isso bateu na inflação e seu combate deve levar a uma desaceleração global em 2009. Nesse cenário, o melhor, diz Azuri, é ficar fora de bolsa, e arriscar pouco em renda fixa, pois não se sabe até onde o Banco Central brasileiro vai puxar as taxas para segurar a inflação. “A hora é de reduzir risco”.

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