Abertura de capital preocupava PF

O processo de abertura de capital da Agrenco e as possíveis conseqüências para os investidores que comprariam as ações foram motivo de preocupação da Polícia Federal, durante as investigações que levaram à prisão de três dos principais executivos da companhia. Eles são acusados de crimes de desvio de dinheiro, fraude de balanços, sonegação de impostos, entre outros.
O delegado Airton Takada, responsável pela Operação Influenza, que no dia 20 de junho prendeu 24 pessoas, disse ontem que a investigação que a PF vinha fazendo desde o meio do ano passado mostrava que havia dificuldades financeiras na Agrenco. A PF grampeou telefones e monitorou mensagens de e-mail durante os meses de investigação. A empresa lançou papéis na bolsa em outubro.
“As gravações sempre falavam de dificuldades financeiras. Essa era a nossa principal preocupação”, explica o delegado. “Quando deflagramos a operação, queríamos levar a verdade aos pequenos investidores: que a Agrenco, à época da operação, não correspondia à imagem de empresa sólida que passava”, afirma.

O lançamento de papéis na bolsa poderia ter sido suspenso se as informações sobre as investigações tivessem chegado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que analisava o processo. Entretanto, isso não aconteceu. Segundo a PF, não houve denúncia à autarquia porque não havia provas concretas sobre os crimes, que começaram a aparecer a partir da apreensão de documentos, computadores e com a análise desse material.
O delegado afirma que a PF sabia dos efeitos que a Operação Influenza teria no mercado. “Sabíamos que poderíamos causar um abalo até na forma de a CVM regular esse tipo de abertura de capital. Acho que o nosso sistema é muito frágil, pela própria forma como a Agrenco ofereceu as ações.”
A PF sabia que a situação financeira da empresa era complicada porque os próprios diretores da companhia comentavam o assunto nas gravações. “Era muito evidente que quase todo patrimônio da Agrenco era sustentado por financiamentos. A movimentação da diretoria, sempre buscando financiamentos, era bem latente.”

Mas não foram só as gravações que mostraram a real situação da empresa. Servidores da Cidasc (companhia de fiscalização agrícola estadual) são acusados de formular certificados de depósito de grãos que não correspondiam à realidade. “Diziam que a Agrenco possuía mais grãos do que realmente tinha, um documento que era usado para conseguir uma linha de crédito”, afirma.
Para o delegado, a empresa é uma vítima da situação. “Nunca consideramos a Agrenco um alvo de investigação.” As acusações recaem sobre três executivos, que foram afastados: Antônio Augusto Pires Jr., ex-diretor de operações, Antônio Iafelice, ex-presidente, e Francisco Ramos, ex-diretor institucional, além de outras pessoas que foram presas na operação.
A investigação vem evoluindo de forma lenta, segundo o delegado. Ele conseguiu prorrogar por mais 15 dias o inquérito que apura estelionato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, crimes contra o sistema financeiro e corrupção ativa e passiva. Ele diz que tem muito ainda para esclarecer, embora tenha avançado no entendimento de alguns fatos e na confirmação de algumas condutas ilícitas que a PF havia vislumbrado.

Um dos esclarecimentos que a PF conseguiu é sobre a operação simulada de soja. “Inicialmente, como sabíamos que a soja jamais havia saído dos armazéns do produtor [Elói Marchetti], achávamos que havia sido feita uma exportação fictícia, mas a exportação de fato ocorreu, pelo que pudemos constatar ouvindo as pessoas envolvidas.” Segundo ele, trata-se de uma operação feita com soja que teria sobrado na empresa Terlogs, pertencente à Agrenco e responsável por operação de terminal e armazéns de grãos para exportação.
A Terlogs, segundo o delegado, tem capacidade de armazenamento de 120 mil toneladas. “Num determinado dia, sobraram 3,2 mil toneladas de soja”, exemplifica. A soja não pertencia à Agrenco, apenas estava depositada na Terlogs. “Os executivos venderam a soja, pegaram uma nota fiscal de um produtor [Marchetti] e exportaram”, afirma. “Esse dinheiro foi parar no bolso dos executivos.” Houve uma simulação de compra, para dar embasamento legal para a soja que sobrou no armazém e que foi exportada.

Segundo o delegado, o produtor Elói Marchetti, que foi ouvido pela PF, disse que houve a venda, mas a Agrenco não retirou a soja. “De fato, foi uma operação simulada porque essa nota fiscal foi emitida, o produtor de soja não entregou mercadoria alguma e a Agrenco, por meio dos seus então diretores, exportou essa mercadoria”, reafirma o delegado. “Os dados que temos no inquérito é que Marchetti fez a venda consciente de que jamais entregaria essa mercadoria. Ele fez como se fosse um favor porque a Agrenco era parceira dele”, acrescenta o delegado, afirmando que os executivos da Agrenco foram os pagadores do imposto da operação. Um imposto que, na verdade, segundo o delegado, cabia ao produtor.
Takada diz que a operação simulada de soja foi um exemplo de várias condutas ilícitas. De acordo com ele, não há outras operações simuladas de soja constatadas pela PF.
O delegado também revela que os diretores da Agrenco demonstraram pretender adquirir ações da empresa para vender em um momento de alta de preços. “Pretendiam fazer um financiamento para adquirir ações e, depois que implantassem três usinas de biodiesel, eles acreditavam que esses títulos subiriam, e esse então seria o momento em que venderiam. Comprariam na baixa, em nome de terceiros, e depois venderiam na alta.” Segundo o delegado, tratam-se de três usinas de biodiesel, uma no Alto Araguaia (MT), uma em Caarapó (MS) e outra em Marialva (PR). “Não sabemos se essa operação [das ações] se concretizou. Não concluímos ainda essa parte da investigação”, diz. A pretensão de investimentos em ações era de US$ 20 milhões, segundo a investigação.

Além dessa operação, o delegado também detalhou ontem um exemplo de maquiagem de balanço, em que uma pessoa, cujo nome não foi revelado, diz ser devedor da Agrenco quando na realidade era credor. Segundo ele, a pessoa disse que concordou em se colocar na posição de devedor porque tinha interesse. “Essa pessoa foi do quadro da empresa e possui ações da Agrenco”, diz o delegado.
Sobre a maquiagem de balanços, Takada destacou que “a KPMG pode não ter encontrado fraudes, mas isso não significa que elas não tenham existido”. O delegado diz que a PF não mensurou o valor das fraudes que teriam sido cometidas pelos executivos. Ainda ontem, cinco pessoas seguiam na prisão da PF em Florianópolis por conta da operação. Iafelice seguia em prisão domiciliar. Procurado, o advogado de defesa dos empresários não se pronunciou.