Operação põe em xeque futuro do Opportunity

Angelo Pavini e Catherine Vieira
09/07/2008
A ação da Polícia Federal atingiu em cheio a Opportunity Asset Management, braço de gestão de recursos do Opportunity. Ela passou praticamente incólume pelos outros escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Dantas, afastado formalmente da empresa desde 1998, mantendo-se como uma das mais respeitadas assets do mercado. Com R$ 20 bilhões em recursos, é a 15 maior gestora pelo ranking da Anbid. Mas, com a prisão de seu principal executivo, o experiente gestor Dorio Ferman, e de parte de sua diretoria, desta vez também a asset se vê apanhada pelo furacão. O desafio será manter a confiança dos investidores de que Dorio voltará ao comando da gestão e que o desempenho das carteiras não será afetado.
Na primeira reação dos investidores, o volume de saques na gestora cresceu fortemente, de uma média de R$ 20 milhões por dia para cerca de R$ 100 milhões ontem após a notícia, explica Fernando Rodrigues, diretor-comercial da asset do Opportunity. Um valor pequeno em relação ao patrimônio total, observa ele. Segundo Rodrigues, os fundos não estão com problemas de liquidez para atender os resgates porque já estavam pessimistas com a bolsa e tinham boa posição de dinheiro em caixa. Os maiores saques concentraram-se em fundos multimercados e foram feitos por grandes distribuidores. Já nos fundos de ações, onde a casa é mais conhecida, especialmente pelo Lógica II, carteira com 22 anos e que deu origem à asset, os saques foram menores.
A gestora colocou em seu site um aviso que os fundos operavam normalmente, mas mesmo assim os executivos passaram o dia ontem atendendo clientes em busca de informações, afirma Rodrigues. Ele lembra que 75% dos recursos pertencem a pessoas de alta renda. “Nossa mensagem foi que nada muda e que a gestão continua tocada pelo time do Dorio.” A equipe está sob o comando de Felipe Pádua, discípulo de Dorio, e do ex-diretor do Banco Central Affonso Bevilacqua. Dorio já estava na prática transferindo a gestão para os novos executivos.
De acordo com um especialista, os gestores substitutos podem ficar à frente do fundo por 30 dias, depois do quê será preciso comunicar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre a troca. Antes, porém, a gestora terá de divulgar um comunicado aos cotistas e à CVM informando situação.
Rodrigues lembra que a gestora passou por uma turbulência parecida em 2004, quando as primeiras denúncias contra Dantas vieram à tona. Na ocasião, a asset tinha R$ 7 bilhões e, em 12 meses, perdeu o equivalente a 4% do total, ou R$ 280 milhões. Nos fundos abertos, porém, a perda foi bem maior, de quase 26%, ou R$ 660 milhões.
Muitos gestores estavam assustados e consternados ontem com o fato de Dorio ter sido detido. Criador do Lógica, um dos fundos de ações mais antigos e conhecidos do mercado, Dorio é um senhor grisalho, que conserva o sotaque nordestino e é extremamente avesso a aparições: jamais se permitiu fotografar. Seu tom conciliador e a fama de competente ajudaram, nos últimos anos, a manter o braço de gestão resistente aos problemas que atingiram Dantas.
As opiniões no mercado se dividiam ontem. Alguns acreditavam que os negócios prosseguirão na gestora. “Há investidores que estão com o investidores há muito tempo” , opinou um gestor. Outros acreditavam que a operação da PF poderia ser crucial. “Vai ser difícil manter os recursos nesse cenário”, afirmou um advogado do setor.