As Células-tronco Embrionárias

Pesquisas ainda geram muita discusão entre Igreja e pesquisadores
Pesquisas ainda geram muita discusão entre Igreja e pesquisadores

O mês de junho vai entrar para a história da pesquisa ciêntífica no país. Por seis votos a cinco o Supremo Tribunal Federal decidiu que o Brasil pode realizar pesquisas com células-tronco embrionárias. De um lado, pesquisadores que querem retomar seus trabalhos e avançar nos resultados, ainda incipientes, em relação a essa nova terapia que podem ajudar a milhões de pessoas. Do outro, a Igreja Católica e alguns juristas que acreditam que o uso dos embriões é desumano por impedir o desenvolvimento da vida.

Esse tema, que a princípio parece distante da população, é de extrema importância para questões relacionadas as novas técnicas da medicina, podendo no futuro tratar doenças que hoje não tem cura. Mas afinal, o que são as células troncos embrionárias?

Segundo especialistas são estruturas versáteis capazes de gerar qualquer tecido ou orgão do corpo humano. As possibilidades para o seu uso são muito promissoras em enfermidades, que ainda não têm cura, como paralisias e doenças degenerativas.

a decisão deve ser respeitada
Padre Carlinhos: a decisão deve ser respeitada

No Brasil, as pesquisas ainda estão em fase inicial de estudo por conta dessa disputa judicial que paralisou as atividades desenvolvidas no pais e somente agora, com a liberação, os cientistas vão retormar seus trabalhos. “O Brasil ainda está engatinhando nas pesquisas com as células-tronco embrionárias. Ainda não temos nenhuma história para contar, mas com a aprovação, as pesquisas poderão ser retomadas e com certeza teremos novos avanços”, analisa o médico Hans Dohmann, diretor científico do Pró-Cardíaco.

Igreja: pesquisa é contra a vida

Padre Carlinhos, Carlos Alberto Nascimento, pároco da Igreja Nossa Senhora da Saúde, em Curicica, cadeirante há 15 anos, depois de um acidente de carro, acha que a decisão tem que ser respeitada, mas a Igreja deve conscientizar sobre a vida. “Se a pessoa decidir que vai utilizar as células-tronco embrionárias devemos respeitar a sua decisão. Se me dissessem que esta terapia é a única solução para o meu problema, eu não faria. Primeiro porque tenho respeito a vida e segundo porque tenho amor a minha Igreja”.

Ele acredita que as pesquisas deveriam se concentrar nas células-tronco adultas, já que alguns bons resultados estão sendo obtidos. “As células-tronco embrionárias podem provocar rejeição e segundo pesquisas realizadas em laboratório podem provocar tumores. Já as adultas, são retiradas dos próprios pacientes, da sua medula óssea, da placenta e até mesmo do tecido adiposo”, exemplifica.

por que usar pessoas congeladas?
Don Antônio: por que usar pessoas congeladas?

Este argumento é o mesmo utilizado por Don Antônio, membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que cita o trabalho realizado no hospital Pró Cardíaco. “Já está confirmada que 73 doenças podem ser tratadas usando células-tronco adultas, como a regeneração de músculos cardíacos. Por que então usar pessoas que estão congeladas? Será que os pais tem direito de dispor da vida dos filhos? São essas questões que a Igreja coloca”.

Para o advogado Paulo Leão, que atua em questões relacionadas a bioética, os experimentos devem respeitar a vida. “Quando ocorre a fecundação já existe um ser vivo. O zigoto, que é a célula inicial, já tem todas as características de um indivíduo”, afirma o advogado Paulo Leão.

De acordo com a lei de Biossegurança, de 2005,só podem ser usados embriões congelados há pelo menos três anos em clínicas de reprodução humana e com autorização dos doadores, que segundo os especialistas, seriam inviáveis para uma gestação.

Paulo Leão não concorda com essa afirmação e cita o exemplo do menino Vinícius. “Esse menino de São Paulo mostra que o argumento de embrião inviável não é seguro. Os pais depois de tantas tentativas frustradas resolveram guardar embriões e depois de oito anos implantaram um novo. Imagina se os pais tivessem deixado que o embrião fosse levado para pesquisas”, explica Paulo.

Resultado ainda gera polêmica

O primeiro paciente a usar células tronco adultas no Brasil foi Nelson Águia, 74 anos de idade, fez a operação em dezembro de 2001. “As minhas células foram retiradas da bacia, levadas para tratamento na UFRJ e no mesmo dia foram implantadas no meu coração”.

primeiro a usar células-tronco
Nelson: primeiro a usar células-tronco

Nelson conta que precisou assinar um termo de responsabilidade junto ao Ministério da Saúde para ser cobaia da experiência e diz que não sentiu medo da nova terapia. “Antes da operação eu tive dois infartes e fiz duas pontes de safena. Eu tinha outras duas escolhas, transplante ou morrer. Eu sempre busquei a vida”, conta o morador da Tijuca.

Segundo ele, a decisão do Supremo foi a mais correta. “Eu fico orgulhoso de ter participado dessa primeira operação do gênero. E agora com a decisão acertada, o Brasil vai poder avançar nas pesquisas”, completa.

Depois de sete anos da operação, Nelson vê mais perspectiva para sua vida. “Eu tinha muita dificuldade para andar, sentia falta de ar. Hoje, eu tenho limitações por causa da minha idade, mas até mesmo o meu coração já mostra sinais de que se recuperou. Vendo os exames, é possível observar que músculos e veias surgiram”.

Don Antônio ainda coloca que deveria se evitar ilusões acerca das pesquisas e das possíveis curas que elas podem trazer. “O caminho é a terapia que utiliza célula-tronco adulta. Ela pode ter a mesma potencialidade que as embrionárias, podem ser retiradas do próprio paciente e não causam rejeição”, completa. Ainda segundo ele, a própria constituição brasileira garante a vida. “Perante a constituição todos somos iguais, mas essas pesquisas, colocam os embriões como material e rebaixam eles se comparados aos que foram implantados no útero”.

O voto mais polêmico foi o do ministro Celso de Mello, a favor das pesquisas com células-tronco embrionárias. Ele criticou a tentativa de encarar o tema do ponto de vista religioso e diz que “o embrião não pode ser tratado como pessoa”. Em seu discurso, ele ainda abordou a questão do descarte dos embriões, que “são fadados ao lixo sanitário” e se usados para as pesquisas teriam “uma destinação mais nobre”.

Mais informações sobre o assunto: www.celula-tronco.com